Era uma grande caverna. Tochas iluminavam com um fogo ardente aquele local. Um grande corredor composto por rochas lisas e uniformes. Mais tochas. Umidade e meia-luz. Passos em direção a uma parte mais iluminada. Certa elevação dava destaque para uma bola de energia cuja cor era imprecisa. Azul escuro, violeta, vermelho; cores misturadas. Aquela forma arredondada assemelhava-se à comum imagem de um buraco negro, com a diferença de que não sugava nada para o seu interior e nem consistia em alguma forma de buraco.
Meu senhor, trouxe Tex como prometi.
A bola de energia respondeu com uma voz potente e grossa, divina.
Muito bem Cavaleiro Sem Nome!
Ele está disposto a entregar a alma em troca de poder.
Isso é verdade mortal? - perguntou o ser para Tex, que estava um pouco receoso.
Sim...- afirmou de forma um pouco hesitante.
Mortal, ajoelhe-se, eu ordeno!
Tex pensou, pensou.
Vamos, faça o que Nosso Senhor manda! - ordenou o Cavaleiro Sem Nome.
Tex se ajoelhou. A energia proveniente daquele ser atingiu o caubói. Quando aquilo cessou, a criatura determinou:
Levante-se! Agora está transformado.
Tex se levantou. Parecia mais forte. Agora seus olhos estavam vermelhos. Ele sorriu.
Bravo! Sua missão e a do Cavaleiro Sem Nome é me ajudar a instalar completamente o caos. Para isso, devemos acabar com a Harmonia. Ela está fraca já. No entanto, não podemos penetrar na sua fortaleza para acabar de vez com ela. E a oportunidade para destruí-la está cada vez mais próxima! - disse a criatura.
Tex e o Cavaleiro Sem Nome assentiram pelas suas expressões. Os olhos vermelhos ganharam mais vigor.
…
Estava começando um tempestade. O Filipe cortava cabeças, braços. Desviava de golpes dos machados raivosos. Decepava pernas. Bucetélia se assustou com o sussurro de Aurora. Foi até a moça e percebeu que ela estava acordando do coma. Como aquilo seria possível? Filipe dissera que a moça havia ficado dois anos naquele estado por conta de um ataque feito por aqueles que ele agora tentava destruir. Aurora parecia muito cansada e confusa. Olhos entreabertos, respiração ofegante. Bucetélia segurou sua mão e disse:
Calma, Filipe já está a caminho...
O semblante de Aurora expressou felicidade com aquela informação. Porém, ela nada disse. A falta de forças a impedia de se expressar em palavras.
Apenas descanse – solicitou nossa heroína.
Ei, moça, Filipe está com dificuldades! - informou João, que ainda observava a batalha junto com Maria através da janela.
A tempestade estava mais forte. Filipe tinha vários ferimentos pelo corpo. Sangrava muito e estava esgotado. Os últimos dois guerreiros do Clã dos Machados ainda o cercavam. Ele mal conseguia empunhar a espada direito. Recebeu mais alguns golpes nas costas e no peito, dessa vez mais profundos. Caiu no chão. Não se sabe de onde tirou forças para defender um golpe que seria fatal, pois fora dado à altura da cabeça. Num giro surpreendente cravou a espada no coração do guerreiro que o atacou.
O Clã dos Machados era composto por homens fortes e altos. Os olhos deles eram puxados e raivosos. Todos cultivavam cabelos compridos mal cuidados. Barbas nunca eram cortadas por eles. Guerreiros natos, nunca se preocupavam com coisas que não estivessem ligadas à luta. Queriam apenas matar, estuprar e comer, literalmente, a vítima. Se deliciavam com o cérebro e com as entranhas daqueles que morriam em conseqüência dos golpes desferidos por seus machados. Aurora havia sofrido muito nas mãos daqueles sujeitos. Fora estuprada e ferida; e só não morreu porque Filipe conseguiu impedir tal ato. Chegou a matar alguns membros do Clã naquele momento, mas não se sentiu vingado. A vingança finalmente chegara. Havia matado pelo menos 10 membros daquele grupo. Faltava apenas o último. Aquele guerreiro encarou Filipe com muita ira. O herói não deixou por menos e segurou a espada com as duas mãos, dando a entender que faria de tudo pra vencer o duelo. Raios e trovões, vento forte. A chuva varria o sangue e o misturava com a lama. Filipe defendeu vários golpes, mas o seu inimigo parecia mais forte. Recebeu alguns ataques nos ombros, nas coxas...Quase caiu! A visão estava turva. O céu cinzento e a chuva não ajudavam também. Perdera muito sangue e a tontura já não o deixava raciocinar direito. Teria forças para dar apenas mais um golpe. O inimigo estava a uns 5 metros de distância. Correria em direção dele com toda a força, com tudo o que lhe restava de energia. Seria tudo ou nada, matar ou morrer! Calculou bem como seria o golpe. Preparou-se. Foi com tudo, ao mesmo tempo que o inimigo. Chocaram-se.
Escuridão.
Filipe abriu os olhos. A lâmina de sua espada havia decepado a cabeça de seu adversário. Fim da tempestade. Cessaram-se os ventos e os raios com trovões. Um céu azul tímido havia começado a se mostrar, com o deslocamento das nuvens. Três arco-íris enfeitavam o cenário. Bucetélia, João e Maria haviam presenciado uma incrível batalha; estavam boquiabertos com o que viram. Filipe caminhou cambaleante até a porta. Encarou os novos amigos. Estava pálido. Bucetélia nada disse. De repente, a face dele se modificou ao notar que o amor de sua vida estava acordada daquele longo sono de dois anos. Lágrimas começaram a escorrer de seus olhos... Ele mal conseguia respirar e andar, mas foi na direção de sua amada. Aurora também chorava de felicidade, mas não conseguia falar. Ele deitou ao lado dela na cama e a abraçou. Ambos compartilhavam das lágrimas de felicidade. Bucetélia observava a cena ao lado de João e Maria, e era impossível segurar a emoção. Filipe segurou o rosto de Aurora e os dois lábios se encontraram. Bucetélia lembrou de Chapeuzinho e também chorou... Aquele casal lindo talvez estivesse vivendo o melhor momento de suas vidas.
Eu te amo – disse Aurora.
Eu também te amo meu amor – respondeu Filipe.
Não agüentarei muito tempo, tenho que me despedir de você meu cavaleiro.
Digo o mesmo. Fui ferido mortalmente. Em alguns minutos fecharei meus olhos para sempre.
Então morreremos juntos.
Sim.
Bucetélia sentiu que era o momento de deixá-los a sós. Pegou nas mãos de João e Maria e os conduziu até a porta. Antes, olhou mais uma vez para Filipe e Aurora. Queria deixar gravado na sua memória aquela cena. Em seguida, abandonou a cabana, deixando para trás aquela imagem do amor mais puro que poderia existir.
…
Voltaram para a Estrada de Tijolos de Ouro.
Eles morreram Bucetélia? - perguntou Maria, enquanto caminhavam.
Infelizmente sim – assentiu.
O que será que acontece quando alguém morre? - questionou João.
Para essa pergunta é difícil uma resposta João. - Bucetélia, em tom sereno.
Que bom estarmos com você. A gente nunca pôde ir muito longe, pois Dona Wonka não deixava. - disse alegremente Maria.
Eu também estou contente em ficar com vocês!
Ei, olha lá na frente, o que é aquilo? - João, apontando para frente.
Várias pessoas nuas sentadas no chão...Que estranho! - disse Bucetélia – Vamos nos aproximar mais e ver quem são aquelas pessoas.
Aproximaram-se do grupo. Eram todos homens magros e estavam completamente desnudos. Semblantes sérios. No entanto, formavam um círculo e cantarolavam algo uniforme em coro, enquanto batiam as mãos uns nos outros. Estavam totalmente concentrados, quase em estado de transe. Os três chegaram ainda mais perto para ouvir aqueles homens.
Escravos de Jó jogavam caxangá
Tira, bota
Deixa ficar!
Guerreiros com guerreiros fazem zigue zigue zá
Guerreiros com guerreiros fazem zigue zigue zá
Bucetélia e as crianças estavam admiradas com a afinação do grupo. Faziam aquilo com uma precisão militar.
Boa tarde! - Bucetélia cumprimentou sorrindo.
Pararam de cantar a música na hora e olharam todos com cara de bravos para a menina.
Desculpem-me, eu não queria atrapalhar! - desculpou-se.
Continuaram olhando irritados para ela.
Podem continuar, não atrapalho mais!
Um deles resolveu responder a garota:
Você não faz parte do grupo, suma daqui!
Os outros repetiram em coro:
Você não faz parte do grupo, suma daqui!
Perdoem-me, eu não queria interromper vocês, não sabia que era tão importante assim!
É, desculpem a gente! - solicitou Maria, em solidariedade a Bucetélia.
Não tem desculpas! Pessoas que não são do grupo não são bem vindas!
Não tem desculpas! Pessoas que não são do grupo não são bem vindas! - repetiram todos os outros.
qual o nome desse grupo? - perguntou Bucetélia.
Escravos de Jó! - Disseram todos em coro.
Como se faz pra entrar no grupo? - questionou João, curioso.
Ninguém entra e ninguém sai do grupo! - mais um vez todos em alta voz.
Os três estavam realmente tomados pela curiosidade.
Eu queria saber como esse grupo começou, e o porquê de vocês cantarem essa música...
Os homens olharam todos seriamente para Bucetélia; um deles respondeu:
O grupo sempre existiu! Cantamos porque é nosso destino!
O grupo sempre existiu! Cantamos porque é nosso destino!
Bucetélia não aceitou aquela resposta.
Alguém deve ter começado o grupo, não é possível! - duvidou a garota.
Não falamos com quem não é membro! - disseram. - Pois somente membros do grupo são dignos, são pessoas boas, perfeitas; os de fora não são nada, são lixo!
Então tá, vamos embora, já que é assim – lamentou a menina.
Bucetélia pegou nas mãos de João e Maria e deixou os Escravos de Jó para trás. Eles continuaram cantando.
Escravos de Jó jogavam caxangá
Tira, bota
Deixa ficar!
Guerreiros com guerreiros fazem zigue zigue zá
Guerreiros com guerreiros fazem zigue zigue zá
…
O fim da tarde chegara. Os três já estavam um pouco cansados de caminhar. Do lado direito da estrada uma plantação gigantesca de feijão; lá no alto um casarão. Pensaram em pedir ao dono para passarem a noite ali. Chegaram até a porteira do lugar e foram barrados por um segurança.
Vocês não podem passar! - disse o homem forte vestido com um terno preto e óculos escuros. Tinha uma careca brilhante e bochechas de bulldog.
Queríamos apenas passar a noite aqui, pois estamos cansados. Não tem como a gente falar com o dono? - Bucetélia pediu encarecidamente.
Não há essa possibilidade, infelizmente, mocinha. - respondeu o homem.
Os três se entristeceram na hora. Sonhavam naquele momento em descansar numa cama macia; e aquela fazenda imensa com certeza teria quartos bem preparados, com tudo o que há de mais fino.
Quem é o dono? - perguntou Bucetélia ao segurança.
Meu patrão é o senhor John Bean, ou João do Pé de Feijão.
Poxa, ele deve ser o maior plantador de feijão que existe, pois tem isso até no sobrenome...- Maria, falando baixinho pra si mesma.
Como ele conseguiu isso tudo, essa fazenda gigantesca? Desculpe-me a pergunta, mas estou fascinada! - disse Bucetélia.
É uma longa história. Vou resumi-la: a família do senhor John era muito pobre. O único bem que tinham era uma vaquinha da qual tiravam o leite todos os dias para se alimentarem. Um dia, eles receberam uma visita ilustre, um mago poderoso e muito sábio. Ele fazia uma espécie de peregrinação por essas terras. A família de John recepcionou muito bem aquele mago, dando-lhe do leite de sua vaquinha e tratando-o da melhor forma. O sábio, então, despediu-se de todos e desejou felicidade para aquelas pessoas. Dotado de toda a sua sabedoria, o sábio foi até a vaquinha e a degolou. O pai de John ficou muito triste com tal situação. Eles se alimentaram da vaca por alguns dias e depois tiveram de ir atrás de outra coisa para fazer. Foi aí que tiveram a idéia de plantar feijão. A primeira plantação foi pequena, mas rendeu lucro. Com o correr do tempo, eles foram tendo mais e mais sucesso. Cinquenta anos depois, ou seja, hoje, John, o único membro vivo daquela família pobre, é um dos homens mais ricos que existe por essas terras. Alguns dizem que ele só ficou rico porque mantém escondida uma galinha que bota ovos de ouro. Bobagem! Quem fala isso é porque desconhece a verdadeira história do senhor John! A galinha dos ovos de ouro dele é o próprio feijão! Bendito seja aquele sábio homem que degolou aquela vaquinha...
Poxa, que história! É uma pena que John não nos receba como a família dele fez com o sábio. - exclamou Bucetélia.
As pessoas mudam de acordo com o mundo – respondeu o segurança.
Mas tudo bem, a gente tem que continuar nossa jornada. Foi bom falar com você e escutar essa história incrível. Obrigada por dividi-la com a gente!
Não há de quê! Desculpas peço eu por não poder fazer nada por vocês. Espero que fiquem bem. Cuidem-se!
Obrigada! - disse Bucetélia, despedindo-se e pegando novamente nas mãozinhas de João e Maria.
…
Estava escurecendo. Nossos amigos pensavam já em parar para descansar. Bucetélia não parava de pensar em Chapeuzinho. Tinha a convicção de que a encontraria novamente.
Avistou a uns cem metros alguma coisa no chão. Seu coração começou a bater forte, pois tratava-se de um capuz. Era semelhante aquele que Chapeuzinho usava. Estava rasgado, ensangüentado. Bucetélia começou a chorar, deixando João a Maria sem entender a situação. Mais à frente, a uns 30 metros, havia outra coisa, um tipo de caixa. Um rastro de sangue ia daquele capuz que Bucetélia encontrara até a tal caixa. Nossa heroína não queria pensar o pior. Porém, não conseguia parar de chorar compulsivamente; seu coração estava quase saltando para fora da boca.
Caminhou com cautela até a caixa, chorando, soluçando. Cada passo que dava era como receber uma chicotada nas costas. Suas pernas tremiam e sua visão ficou embaçada. Bucetélia não conseguia raciocinar. Chegou até a caixa e quase desmaiou com o que viu:
NÃÃÃÃÃÃÃÃAÃÃÃAÃOOOOOOOOOOOOOOO! - gritou o mais forte que pôde.
Não compreendia nada. Parecia louca, se debatendo, não acreditando no que via. Chorava, gritava, batia as mãos no chão com força e repetia o “não” diversas vezes. Estava inconformada. João e Maria estáticos, olhando para a amiga.
Dentro da caixa havia um corpo esquartejado de uma menina vestida de vermelho. Cabeças, pernas, braços, entranhas e muito sangue.
Bucetélia ficou deitada no chão chorando. João e Maria se aproximaram e abraçaram a menina, consolando-a.
Estava escuro. Vultos começaram a surgir em volta de nossos amigos. Eram sombras estranhas. João percebeu o que estava acontecendo e tentou avisar Bucetélia, mas ela não conseguia pensar em mais nada; só conseguia chorar e chorar. As sombras se aproximaram mais e mais. Cercaram os três.
Estavam todos encapuzados. Um deles dirigiu a palavra a Bucetélia:
Levante-se menina!
Bucetélia se assustou. Porém, não se importava de ser morta. Nada mais valia a pena. Temia apenas pelas vidas de João e Maria. Olhou atentamente para aqueles que o cercavam. Aqueles trajes não lhe eram estranhos.
O que vocês querem? - perguntou.
Somos do Clã dos Caçadores. - respondeu.
Bucetélia parou o choro e prestou atenção.
Queremos lhe informar o seguinte: o corpo que está esquartejado e que se encontra nessa caixa não é da sua amiga Chapeuzinho.
O alivío, a esperança, a felicidade, tudo isso retornou à mente de Bucetélia naquele instante. As lágrimas de tristeza cessaram.
Mas aonde estaria então a Chapeuzinho? O Clã dos Caçadores com certeza teria a resposta para essa pergunta.
Nenhum comentário:
Postar um comentário