É aquilo que estou pensando?! - perguntou Bucetélia apreensiva.
Sim! O Clã dos Machados!!! Eles acharam minha casa e não desistirão até me matarem! - confirmou Chapeuzinho.
E o que faremos?!
Temos de correr, correr muito! Eles atacam em grupos de seis a dez indivíduos. Enfrentá-los seria suicídio.
E como sairemos daqui? Oh meu deus, estão esquartejando o Zé Mascate!! - disse, enquanto olhava pela janela.
Há uma porta nos fundos, escondida atrás do armário. Vamos passar por ela e correr como nunca na vida. Temos que fazer isso rápido, pois eles logo invadirão essa casa!
Vamos então! - disse nossa heroína com os olhos arregalados.
As duas passaram pela porta rapidamente e correram, como era previsto. Era um bosque com árvores coloridas. A luz do sol só vinha a somar naquele belo cenário. Aquela terra um pouco vermelha e úmida grudava nas solas dos sapatos de nossas aventureiras. E elas corriam sem poder prestar atenção naquela beleza que as circundavam. Em volta, passarinhos, cobras, coelhinhos e toda sorte de pequenos animais considerados fofinhos. Nada disso importava naquele momento para elas, pois só pensavam em correr e salvar suas vidas. Bucetélia escorregou na lama e ralou os joelhos. Chapeuzinho ajudou a amiga a levantar e fez sinal para que continuassem correndo. E continuaram. Um declive se iniciou logo à frente, fazendo-as serem obrigadas a ir ainda mais rápido. A sensação de passar por uma mata talvez virgem era imprescindível; Bucetélia suava, assim como Chapeuzinho, e ambas estavam no ritmo que conseguiam. - Adrenalina – pensava a inocente garota, relembrando a forma como deslizou naquele buraco que a fez parar no mundo no qual agora estava. Lembrou-se dos cogumelos, da injeção estranha, dos anões, do atirador e de sangue, muito sangue. Até agora, era o que mais tinha visto depois de atravessar aquela porta cujo código era 69. E passou por momentos muito arriscados, quase sendo morta diversas vezes. Se estava viva, Chapeuzinho era responsável, sem dúvida. Olhou para a moça guerreira, com seus cabelos ruivos que voavam junto com o vento que vinha na direção contrária. Aquele corpo bem definido, olhos verdes, sardas. - Meu anjo – pensou. Chapeuzinho só conseguia pensar em proteger aquela doce menina que a acompanhava. Não sabia ao certo o porquê do magnetismo que a unia àquela jovem. Seria coisa do destino? Olhava para aquela menininha morena de cabelos ondulados e negros, com olhos castanhos claros e sentia uma paz. Lembrava do seu sorriso gracioso, de sua pele macia como o melhor pêssego do Éden. Recordou do momento posterior a Bucetélia tomar aquele gole de vinho, à noite, na Estrada de Tijolos de Ouro: Chapeuzinho teve vontade de abraçá-la ao ver que as bochechas de sua companheira haviam ficado enrubescidas. Não o fez, talvez por medo de ser repreendida. - Mas agora faria, se tivesse oportunidade! – pensou. Chapeuzinho já estava quase esquecendo do abraço que deu em Bucetélia ainda em sua casa, após acordar do desmaio causado pelo veneno do lobo. Veio na sua cabeça a imagem daquela menina com os olhos cheios de lágrima e que veio ao seu encontro, abraçando-a. Sorriu após essa lembrança. E continuaram a correr. Logo à frente avistaram um rio.
Você sabe nadar? - perguntou Chapeuzinho.
Não sou a melhor nadadora do mundo, mas não morro afogada facilmente. - disse ofegante Bucetélia.
Teremos de atravessar aquele rio. Se o fizermos, creio que despistaremos totalmente o Clã dos Machados!
Atravessaremos então!
Sim, vamos agor...
FUPT!
Um machado quase atingiu Chapeuzinho. O temor da morte repentina retornou mais rápido do que acreditavam.
O que faremos?!! - gritou Bucetélia, apavorada.
Terei de lutar contra eles! - respondeu, olhando para todos os lados.
Você mesma disse que isso seria suicídio!
Não temos escolha! Quero que você atravesse o rio. Encontro você na Estrada de Tijolos de ouro.
Não, não vou te deixar! - disse, com os olhos encharcados.
Por favor, vá, eu ficarei bem, prometo! - afirmou Chapeuzinho, com lágrimas nos olhos.
Tome cuidado! - disse, enquanto se aproximava para abraçar a companheira.
Tomarei, pode deixar... - sussurrou no ouvido de Bucetélia, quando as duas estavam já abraçadas e com lágrimas escorrendo. Os coraçõezinhos bateram muito forte naquele momento.
Bucetélia se atirou no rio. Era mais ou menos uns cem metros para atingir a outra margem. No meio do caminho parou e viu Chapeuzinho cercada por vários homens fortes e com machados na mão. Pensou em voltar. Se fizesse isso, quebraria a promessa. Percebeu quando a amiga começou a lutar com aqueles guerreiros. Pulava de um lado para o outro, se esquivava dos golpes. Bucetélia preferiu deixar de ver, pois não aguentava aquilo. Continuou nadando para atingir a outra margem. Ouviu um grito feminino. Chegou do outro lado do rio. Tentou avistar Chapeuzinho de lá mas a luta parecia ter acabado. Nem sinal da amiga ou do Clã dos Machados. Sentou à beira do rio e ficou ali, observando, cabisbaixa, cansada. -Será que ela está bem? - perguntou internamente. Continuou sentada ali por mais ou menos meia hora. Estava triste e inconformada.
Bucetélia resolveu continuar o caminho. Havia prometido à amiga que iria chegar novamente na Estrada de Tijolos de Ouro. - Como o farei? - perguntou para si mesma. Lembrou então de como havia encontrado a casa de Chapeuzinho com a ajuda de Zé Mascate. - A bússola! - lembrou. Ficou contente por ter guardado aquele artefato no bolso do casaco que recebera de Leão. - Ainda bem que não tirei esse casaco para atravessar o rio – pensou. Pegou a bússola. Estava molhada. Bucetélia temia que ela não mais funcionasse por esse motivo. Balançou um pouquinho o objeto para que a água que estava nele escorresse. Abriu a tampinha e fez a pergunta para a bússola: - Para onde fica a Estrada de Tijolos de Ouro? - O instrumento apontou para o norte. Bucetélia olhou para a mesma direção e percebeu que era uma região montanhosa. Teria de adentrar naquele lugar desconhecido para atingir seu objetivo. Ao contrário do bosque pelo qual havia passado correndo, ali era seco, quase desértico. Tinha muitas rochas, colinas, vegetação rasteira. Bucetélia continuou à frente. A uns 100 metros dela, no caminho pelo qual a menina teria de passar, uma multidão. Essas pessoas estavam reunidas na parte mais aberta daquele lugar. Bucetélia foi se aproximando e observou que se tratavam de mulheres. Talvez umas duzentas moças carregando cartazes e gritando alto as mesmas coisas:
Queremos nossos direitos!! - gritavam algumas.
Abaixo o trabalho semi-escravo! - diziam em coro outras.
Bucetélia ficou curiosa. Aproximou-se de uma delas e perguntou:
Do que se trata essa manifestação, por favor?
Somos empregadas domésticas! Estamos reivindicando nossos direitos trabalhistas. Não podemos mais viver desse jeito, como umas condenadas.
E o que vocês querem conquistar com esse protesto? - perguntou.
Queremos redução da jornada de trabalho. Não agüentamos mais trabalhar das seis da manhã à meia noite! E também pretendemos ter folga nos sábados. Somos jovens, pelo menos a maioria, e temos de nos divertir!
Que interessante. Apóio vocês! Qual o seu nome?
Cinderela.
Bonito nome! - disse sorrindo Bucetélia.
Obrigada! E você, o que está fazendo por essas bandas?
Preciso chegar à Estrada de Tijolos de Ouro.
É só continuar na direção norte. Fica um pouco longe daqui.
Pois é. Por isso preciso ir. Espero que consigam obter resultado com esse protesto.
Também espero. Acredito que conseguiremos, pois se continuarmos a greve nossos patrões estarão perdidos. A maioria não sabe fazer comida, nem mesmo se pentear ou amarrar os sapatos. Vão começar a viver no meio do lixo, pois nem ao menos têm a capacidade de pegar uma vassoura e varrer a sujeira.
Verdade! - disse Bucetélia, rindo. - Bonitos sapatos!
Obrigada! São de cristal. Ganhei de um príncipe.
Sério? E onde ele está?
Boa pergunta. O sacana me deu presente, disse que me amava, me deu flores...E, por último, esses sapatos de cristal. Fez tudo bem planejado, dizendo que eu iria sair dessa vida de empregada, que viraria uma princesa e futuramente rainha. Não deu outra, dei pra ele. Não que não tenha sido bom, pois ele era maravilhoso na cama, mas eu queria que as promessas dele se cumprissem.
Que coisa hein! - Bucetélia lamentou.
E agora piorou a situação, porque tenho um filho dele pra criar. Sim, eu fiquei grávida e fodida, com o perdão da expressão! E se eu trabalhar das seis até meia noite todos os dias, como vou encontrar um pai para meu menininho? Por isso estou aqui junto com minhas amigas.
Você está certa em protestar! Tenho certeza que vai dar tudo certo pra você!
Obrigada. Espero que consiga encontrar o que você quer também. E lembre-se: não acredite em tudo o que os príncipes encantados dizem para você.
Lembrarei disso. Agora tenho que ir.
Tudo bem. Cuide-se! Tchau!
Você também, cuide-se. Até!
Nossa amiga continuou na direção que a levaria de volta à Estrada de Tijolos de Ouro. Ficou refletindo acerca da história de Cinderela. Muito triste, realmente. Não queria que aquilo acontecesse a ela própria. Aquilo a fez lembrar de Chapeuzinho, curiosamente. Queria muito rever a amiga. Ficou um pouco triste por lembrar do modo como as duas se separaram. Porém, ela tinha de ter a esperança de reencontrá-la.
Mais à frente avistou um menino e uma menina. Deviam ter uns nove anos de idade cada um. Estavam parados em meio à estrada com cestos à mão. Bucetélia notou que eles estavam um pouco sujos, com roupas rasgadas, despenteados e com cabelos sebosos. Olhos remelados. - Coitados – pensou. Foi se aproximando deles até ser abordada.
Quer comprar chocolate moça? - disse o menino.
Não, obrigado, não tenho dinheiro. - respondeu Bucetélia.
Ah, só um, por favor! - disse a menina. - É baratinho, só uma lasquinha de ouro! - falou sorrindo com olhos brilhantes.
Eu realmente não tenho dinheiro...- Afirmou Bucetélia com pena.
A gente troca por qualquer coisa de valor que você tiver, não tem problema não!
Eu realmente queria ajudar, mas não tenho como.
Viu Maria, de novo! A gente tá ferrado se não vendermos nenhum chocolate hoje!
Sim, estamos completamente ferrados! A Dona Wonka vai nos matar!
Perdão, mas quem é Dona Wonka? - perguntou Bucetélia curiosa.
É a mulher que nos cria. Ela mora perto daqui e tem uma fábrica de chocolates. - respondeu o garoto.
E por que ela cria vocês? Cadê o seu pai e a sua mãe?
Somos órfãos. Nossos pais morreram num ataque do Clã dos Machados. A gente fugiu e se perdeu na floresta. Aí encontramos a casa da Dona Wonka. Ela aceitou cuidar da gente se a ajudássemos a vender chocolate. O problema é que somos espancados nos dias que voltamos para casa com as mãos vazias.
Poxa, que coisa. Se eu pudesse ajudá-los em algo.
E pode, basta comprar um chocolate – disse Maria.
Como disse, não tenho nada de valor e nem dinheiro – lamentou Bucetélia.
Nisso veio se aproximando uma velha corcunda. Ela tinha problemas para se locomover, cabelos mal cuidados e uma verruga no nariz. Os seus olhos eram malvados.
E aí, venderam alguma coisa? - perguntou num tom irritado.
Ainda não Dona Wonka! - disse João.
Seus desgraçados! Dou comida, cama e uma casa para morarem e o que recebo em troca? Nada! São uns inúteis! - disse gritando.
Bucetélia estava apenas parada observando a cena. Nada podia fazer. A velha aproximou-se de João e lhe desferiu um tapa forte no meio da fuça. O menino se abaixou com a mão no rosto e começou a chorar. Maria o abraçou e chorou junto com o irmão. Bucetélia disse:
Minha senhora, por que maltrata essas pobres crianças? - perguntou num tom sério.
Não é da sua conta, vai cuidar da sua vida!
Eles não fizeram nada, apenas não conseguiram vender os chocolates!
Eu já disse pra você cuidar da sua vi...
FLIP!
Um machado acertou o meio da velha que se ajoelhou cuspindo sangue até morrer. João e Maria se assustaram e olharam para Bucetélia, que pegou nas mãos dos dois os levantando:
Vamos, temos que fugir daqui! -
Para onde? - perguntou Maria.
Na direção norte! - disse Bucetélia querendo apurar os dois.
FUPT! FUPT! FUPT!
Um monte de machados começaram a ser arremessados na direção deles. Bucetélia disse mais uma vez:
Por favor, não podemos perder tempo! Agora, corram!
E os três partiram correndo na direção norte, sem olhar para trás, deixando o corpo de Dona Wonka lá caído.
Mais à frente havia uma cabana. Bucetélia pensou, pensou, e resolveu entrar nela para talvez despistar o Clã dos Machados. Dentro dela, um rapaz loiro se assustou ao ver aquelas pessoas invadirem sua casa. Ao perceber que se tratavam de uma jovem e duas crianças indefesas, perguntou:
Olá, em que posso ajudá-los?
Bucetélia estava ofegante. Ao olhar aquele rapaz, algo lhe deu a certeza que ele seria hospitaleiro.
Estamos fugindo do Clã dos Machados! - disse.
Aqueles desgraçados! - disse ele. - Chegou o momento da minha vingança! Fiquem aqui, irei lá fora acabar com esses filhos da mãe! - afirmou com muita ira nos olhos.
O que eles fizeram com você? - perguntou Bucetélia.
O amor da minha vida está em coma por causa deles. Foi cruelmente atacada. Por isso vou acabar com eles. Esperei dois anos por esse dia. Cuidei de Aurora esse tempo todo acreditando que iria vingá-la. E não deu outra, hoje vocês aparecem aqui dentro da minha casa dizendo que o Clã dos Machados está lá fora! Peço que cuidem da minha amada enquanto acabou com eles, por favor! - disse o jovem, enquanto ajeitava a espada à cintura.
Enquanto ele abria a porta para enfrentar aqueles guerreiros, Bucetélia observava na única cama que havia naquela cabana uma linda jovem desfalecida. Cabelos longos e finos. Pele Clara. Era uma bela garota adormecida. João e Maria observavam através da janela. João gritou para Bucetélia:
- Moça, vem cá olhar! Ele já matou dois deles!! E outros o estão cercando.
Bucetélia foi na direção da janela e viu que era verdade o que João falara. Ela estava admirada com a coragem daquele guerreiro. Observou atentamente todos os movimentos dele com a espada, e a forma como começou a acabar com aqueles ferozes homens um por um. Até que de trás uma voz bonita e cansada chegou aos ouvidos de Bucetélia:
- Filipe! Filipe! - sussurrara a recém acordada Aurora...
Nenhum comentário:
Postar um comentário