A tocha tocou aqueles restos mortais. Todos sentiram o calor. As chamas ardiam e purificavam a alma sofrida. Bucetélia, sentada num tronco ao lado de João e Maria, observava o ritual na aldeia do Clã dos Caçadores. Onde estaria a amiga Chapeuzinho? A cabeça dela estava confusa; sua memória parecia apagada. Por que tudo aquilo estava acontecendo? Que mundo estranho era esse? Perguntas, perguntas e mais perguntas. Bucetélia não lembrava de seu passado. Mal sabia quem era. Só tinha uma certeza: tinha de encontrar Chapeuzinho! Além disso, precisava seguir na Estrada de Tijolos de ouro para encontrar as respostas, para recuperar a memória e entender tudo o que se passava.
- Venha dançar com a gente! - disse João, que se levantara juntamente com Maria para se juntarem aos membros do Clã, numa espécie de dança para purificação dos mortos.
- Não sei se quero.
- Vem Bubu! - gritou Maria, já longe.
A pensativa jovem apenas acenou com a cabeça, dando a entender que ficaria ali mesmo, sentada no tronco.
A aldeia era pequena. Deviam viver cerca de duzentas pessoas nela. As cabanas eram feitas de palha e argila. Todos, com exceção de crianças bem pequenas, usavam um capuz vermelho. O capuz era o símbolo cujo significado denotava aptidão à caça. Não havia diferenciação entre homens e mulheres. Todos caçavam. Todos preparavam comida. Todos cuidavam das crianças. O lema do Clã era: Igualdade a todos. Havia, é certo, uma hierarquia. Como em muitas sociedades, os mais velhos recebiam um respeito maior por parte dos mais jovens. E a família? O núcleo fechado em si não existia. Todos eram a família. Todos eram pais, mães, irmãos. As leis eram sempre executadas e estavam sob manutenção dos anciãos (ou seja, aqueles cuja idade não permitia mais o exercício da caça). Todo membro do Clã treinava os fundamentos da caça e da luta corporal desde muito cedo. Mal começavam a caminhar e já eram mobilizados para o treinamento. A disciplina era o requisito básico para todo aquele que quisesse permanecer no Clã. Aqueles que quisessem viver fora da aldeia, deviam pedir permissão para o grupo de anciãos. Esse parecia ser o caso de Chapeuzinho. Os membros não temiam a morte: ela era vista como passagem para outro plano. Aquele ritual que Bucetélia observava era uma espécie de festa que celebrava a passagem do morto para outro mundo melhor que este. Todos sorriam e dançavam com alegria.
Uma mão tocou Bucetélia, assustando a pequena jovem. Tratava-se de uma senhora muito idosa. A mulher encarou nossa amiga e perguntou:
- Tantas pessoas felizes aqui, e por que você está triste?
- Porque sinto falta de uma pessoa que não está aqui.
- Você gosta muito dela?
- Sim!
- E o que a impede de encontrá-la?
- Não sei, tudo! Tudo dá errado! Ela se perdeu por minha culpa...
- Você tem certeza que é sua culpa?
- Prefiro pensar que sim.
- Se culpar não vai trazê-la de volta.
- Mas não sei o que posso fazer.
- O que o seu coração diz?
- Hummmm...Que devo seguir o meu caminho. E que fazendo isso, vou encontrá-la!
- Então você já tem a resposta...
- Você acha mesmo que devo fazer isso?
- O mais rápido possível.
- Mas, e se eu falhar? Se não encontrá-la?
- Você não vai saber se ficar aqui parada. Na vida nós precisamos de atitude. Devemos encarar o medo e ir em frente sem pestanejar! Você não é deste Clã, mas minha idade me dá experiência suficiente para eu reconhecer uma pessoa guerreira quando a vejo.
- Obrigada! Você me ajudou a enxergar a verdade. Preciso continuar minha jornada pela Estrada de Tijolos de Ouro. Vou encontrar o mago que sabe de tudo e perguntarei a ele sobre o paradeiro de Chapeuzinho!
- Agora enxerguei um brilho nos seus olhos...Vá em frente!
- Muito obrigada!
Bucetélia se dirigiu até João e Maria e os abraçou. A velha observava os três sentada no tronco onde havia conversado com a menina há pouco.
- Fiquem aqui na Aldeia e estarão seguros! Eu preciso continuar minha jornada.
- Você vai nos deixar? - perguntou Maria com o olhos lacrimosos.
- Por pouco tempo. Volto para buscá-los em breve! Não posso arriscar suas vidas.
- Você promete? - perguntou João, deixando escorrer uma lágrima.
- Claro, meu anjo!
Nossa heroína se dirigiu até o caminho que dava para a saída da Aldeia e na direção de volta à Estrada de Tijolos de Ouro. A velha, a qual havia observado tudo com um pequeno sorriso nos lábios, de repente desapareceu, como num passe de mágica.
De volta à Estrada de Tijolos de Ouro. Bucetélia precisava continuar caminhando. A casa do mago que sabia de tudo não podia estar muito longe. Uma vez chegando lá, perguntaria para ele qual o paradeiro de Chapeuzinho.
Estava escuro. Corujas ululavam. Olhos dos animais noturnos brilhavam. Cada passo do nossa pequena era cuidadoso. As estrelas cintilavam num céu extremamente negro. As folhas das árvores em volta vibravam e seus galhos chacoalhavam com a corrente de ar. Ao longe, uns duzentos metros dali, uma grande rocha e uma porta. Bucetélia se aproximou e observou que na grande porta havia algumas inscrições: O desenho de um arco-íris e, logo abaixo dele, estavam esculpidas as sete notas musicais. Em ordem: Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá, Si. Como entrar ali? Com certeza devia ser o lar do mago que sabia de tudo.
Havia uma espécie de argola de aço cravada na porta. Tinha a função de ajudar a pessoa a bater nela. Bucetélia bateu. Várias vezes. Nada. Novamente. E novamente. Nada. Será que o mago não queria ajudá-la? Pensou.
- Que coisa! Tenha dó! - disse, irritada.
Nisso, nossa amiga observou que o símbolo correspondente a nota musical Dó ficou brilhante.
- É isso! - Gritou, animada.
Cantarolou: - Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá, Si.
Todos os símbolos correspondentes às notas musicais brilharam, bem como o desenho do arco-íris. A porta se abriu. Bucetélia entrou.
O interior do local era todo iluminado, colorido. Havia também muita música que não sabe de onde vinha. Parecia tudo feito de cristal, ou de um material que não existia no mundo real: era mágico. Em meio às cores, números surgiam no teto e nas paredes. Tudo muito onírico. Aquelas coisas brincavam com os sentidos de Bucetélia. Os cheiros mais diversos adentravam suas narinas e o ar reluzente trazia consigo sabores inimagináveis que invadiam sua boca ao respirar. E ela caminhava em direção a um altar no qual brilhava uma luz que quase a cegava. Ela se dirigiu até a luz. A observou atentamente. Parecia se movimentar. Estava tomando uma forma semi-humana. Tinha olhos, os quais passaram a encarar também nossa querida aventureira. A luz disse:
- Olá novamente.
- Olá! Por acaso nos conhecemos?
- Sim. Eu a trouxe até aqui...
- Como?
- Numa conversa que tivemos há pouco?
Bucetélia encarou a luz assustada.
- Aquela senhora era você?
- Sim!
- O que quer de mim? – perguntou, receosa.
- Pensei que você era quem queria algo de mim...
- Eu queria. Mas você me atraiu até aqui!
- Na verdade, todos nós precisamos de você.
Bucetélia não entendia.
- Por quê?
- Porque é a única capaz de salvar esse mundo.
- Como? Eu nem sei o que sou, quem sou! Perdi minha memória totalmente...E perdi uma pessoa muito importante pra mim! Achei que quando viria aqui o tal mago que sabe de tudo poderia me ajudar... - disse, em tom de lamentação.
- Tudo ficará mais claro quando você terminar sua jornada.
- E onde ela termina?
- No recomeço de tudo.
- Não entendo nada! Afinal, quem é você?
- Você pode me chamar de Harmonia.
- Harmonia? Como assim?
- Vou lhe contar uma história...
No início, nada havia. Ou melhor, o que havia era a ausência de tudo. Ninguém sabe como, de repente, do nada surgiu um elemento fundamental. Os homens, para entendê-lo hoje, o chamam de número 1. O tempo também não existia, nem o espaço. O que havia era esse elemento. Sozinho no meio do nada, de repente, também ninguém sabe como, o tal elemento resolveu se duplicar. Surgiu o segundo elemento, idêntico ao primeiro. Esses dois materiais passaram a existir no nada. No entanto, algo os unia. Esse algo era uma espécie de elo. Os homens a chamam de linha. Surgiu, então, a distância. Por mais que se afastassem ou se aproximassem, a linha os unia naquele vazio. Ninguém sabe como, nem mesmo eu, os dois elementos fizeram deles sair um terceiro elemento, o qual também era unido a eles por um elo. Os homens passaram a chamar esses elementos de 1, 2 e 3. Três dimensões surgiram nesse jogo do universo. Porém, ainda não havia matéria, mas somente esses elementos fundamentais. Não demorou muito para que uma quarta substância fundamental surgisse daqueles três anteriores. Foi o início do plano, da realidade primordial, da matéria. Esse foi o começo do nosso universo. Da multiplicação desses elementos surgiram todas as coisas...Os universos se multiplicaram. As realidades se subdividiram. Contudo, no começo o que reinava era o caos. Os elementos eram instáveis, obsoletos. Tudo surgia e se desintegrava a todo momento. Foi aí que houve a necessidade da harmonia, do equilíbrio da matéria. Foi nesse momento que eu nasci. Surgi do caos. Mas estou aqui para controlá-lo. O caos em demasia é o fim de todas as coisas. A Harmonia, ou seja, eu, estou aqui para botar ordem na desordem... Essa era a história que eu queria lhe contar.
Bucetélia tinha ouvido tudo muito atentamente. Porém, não entendia o porquê de tal história. O que ela tinha a ver com tudo aquilo?
- Se você é tão especial assim, por que precisa da minha ajuda? Qual a minha importância?
- Você é importante para esse mundo e irá salvá-lo porque você é um s...
BANG!