quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

CAPÍTULO 9

Acorrentada na rocha fria da caverna escura, Chapeuzinho aguarda. Não sabe ainda o porquê de ter sido mantida viva pelos guerreiros do Clã do Machado que a capturaram. Sentia falta de Bucetélia e temia por sua segurança. Porém, nada podia fazer. Mal conseguia se movimentar, pois as correntes que a envolviam a impediam. Restava esperar.



Harmonia utilizou seu poder para impedir que Tex, fortalecido pelo poder do Caos, a acertasse. Criou uma espécie de campo de força ao redor da garota.


      - Vocês não a matarão dessa vez! - gritou Harmonia.

      - Então entregue-a! Meu mestre precisa dela para acabar com o ciclo! - disse Tex.

      - Ciclo?! - exclamou a jovem, sem entender nada.

      - Se ele não absorvê-la agora, conseguirá na próxima vez! Entregue-a, ou a matarei!

      - Não!


BANG! BANG! BANG!


Os tiros, agora mais poderosos, pois estavam envoltos pela magia do Caos, foram todos defendidos por Harmonia. No entanto, ela aparentava fraqueza.


      - Continuarei a atirar infinitamente!

      - E eu a defenderei até não aguentar mais!

      - Se é assim!


BANG! BANG! BANG! BANG! BANG!


Harmonia estava muito debilitada. Quase não conseguia mais proteger Bucetélia.


      - O Caos é muito mais forte que você! Desista! - disse Tex.

      - Nunca!

      - Então toma mais alguns ti.... ARGH!


Uma espada cravou em suas costas por trás. Tex caiu de joelhos e em poucos segundos virou pó, pois assim era a morte daqueles que serviam ao Caos. Filipe guardou sua espada. Reconheceu Bucetélia e para ela sorriu.

A jovem se espantou:


      - Você não morreu? - perguntou.

      - Estou muito vivo, como vê! - disse o cavaleiro.

      - Como?!

      - Não sei ao certo. Estava quase perdendo minhas forças, morrendo, quando senti que uma energia boa, positiva, me atingiu. De repente me senti revigorado. O mesmo aconteceu com Aurora.

      - E aonde ela está?

      - Segura, em nossa casa. Mandou lembranças a você!


Harmonia disse:


      - Fui eu que lhe ajudei, nobre cavaleiro, e o guiei até aqui!

      - Por isso senti como se soubesse para onde deveria ir. Meus sentidos me trouxeram até esse lugar. Não sabia que reencontraria essa minha pequena amiga!

      - Agora, sua missão é proteger essa jovem até o fim de sua jornada. - exclamou Harmonia.

      - E aonde acaba minha jornada ? - perguntou Bucetélia, curiosa.

      - Você sabe. Eu lhe disse para seguir seu coração...

      - Preciso encontrar Chapeuzinho.

      - Também sabe minha opinião quanto a isso...

      - Mas pra onde devo ir?

      - Chapeuzinho está presa na caverna onde reina o Caos. - respondeu Harmonia.

      - Em qual direção isso fica?

      - Em nenhum lugar desse mundo. O Caos está no nada. Aonde não existe tempo nem espaço.

      - Hã?! Como?!

      - Para chegar ao Caos, vocês precisam encontrar a aldeia do Clã dos Machados. Uma vez lá, derrotem os inimigos e saberão como encontrar Chapeuzinho no lugar onde reina o Caos.

      - Como vou encontrar essa aldeia?

      - Ela fica próxima ao começo de sua jornada...

      - Hummm...eu me lembro daquele lugar. Uma sala muito estranha.

      - Exatamente.

      - Uma última pergunta: Quando Tex nos atacava, você disse “vocês não a matarão novamente”. Como assim? Não morri. Sempre estive viva, pelo que me lembro.

      - Essa resposta somente terá no fim de seu destino. E espero que seja logo. Agora, siga! Você precisa encontrar o seu caminho. Boa sorte!

      - Muito obrigada!

      - Fiz a minha obrigação...


Saíram dali Filipe e Bucetélia.


Os dois saíram no cavalo branco do guerreiro. Novamente a sensação de cavalgar dava certo prazer à garota. Estava amanhecendo. Tudo muito verde. Céu azul. Pássaros ao redor. O caminho pela Estrada de Tijolos de Ouro estava finalmente agradável, após tantos incidentes ali ocorridos.


Avistou mais uma vez o Asilo de Oz.


      - Que tal pararmos aqui um pouco para descansar? Conheço pessoas nesse asilo. - afirmou Bucetélia.

      - Claro!


Ela se aproximou da porta e logo foi atendida por Leão.

- Que bom você nos visitar! Entrem, sejam bem vindos! Estamos aqui fumando narguilé! Já fumou alguma vez?

      - Não...err...Esse aqui é Filipe. Ele é um grande amigo!

      - Prazer em conhecê-lo. Sou Leão, o responsável pelo Asilo de Oz!

      - O prazer é todo meu – retrucou Filipe.

      - Vamos, sentem-se aqui nesse sofá.

Vários idosos, deficientes e retardados mentais estavam em volta, sentados em cadeiras de rodas ou mesmo no chão e encaravam os visitantes com certo entusiasmo. Fumavam narguilé tranquilamente, passando uns aos outros. Dorothy mantinha seu olhar estagnado. O Espantalho mal conseguia puxar a fumaça para dentro dos pulmões. O Homem de Lata era o mais lúcido, e sorria para os convidados, embora sem conseguir falar devido à velhice. Totó, o cãozinho sem perna, roía um osso no canto da sala.

      - Aceitam vodka? - perguntou Leão.

      - Não sou de beber, obrigada!

      - Eu aceito! - disse Filipe.


Leão trouxe um copo e a garrafa. Caprichou na dose. Era já o fim da tarde. Bucetélia contou toda sua aventura para os residentes do Asilo, os quais escutaram tudo atentamente.


      - Então quer dizer que vai atrás de Chapeuzinho? - Perguntou Leão.

      - Sim, nem que seja a última coisa que eu faça na vida!


TOC, TOC, TOC!


Batidas na porta. Todos ficaram apreensivos. Filipe estava meio tonto, devido à vodka. No entanto, na espreita, com as mãos na espada. Leão se aproximou cautelosamente. Abriu a porta...

      - Robin Hood! Venha, entre! Tenho convidados e você vai adorar conhecê-los.

      - Olá Leão! Estava de passagem e resolvi fazer uma visita!

      - Fez bem! Olha, essa menina linda aqui é a Bucetélia. O rapaz fortão aí é o Filipe. Eles estão procurando uma moça desaparecida.

      - Olá, tudo bem?

      - Tudo – responderam.

      - Vocês gostam de jogar pôquer?

      - Eu nunca joguei - respondeu Bucetélia.

      - Adoro! - disse Filipe, sorridente.

      - Aceita vodka, Robin? - questionou Leão.

      - Aceito qualquer bebida alcoólica que você me oferecer! Hehe!


Anoiteceu. Robin Hood rapelou todos os moradores do Asilo. Rapelou, inclusive, Filipe, que perdeu todas as moedinhas de ouro que trazia consigo. A fama de Robin nessas terras encantadas era de ganhar quantias enormes de dinheiro em cassinos e em rodas de pôquer. Gatuno, adorava tirar fortunas dos mais ricos. Dar aos pobres? Bem, isso foi um mito que se espalhou. Dizem que Robin Hood já tentara ser prefeito de uma das cidadezinhas do Reino Encantado do Norte – por isso o papo de “dar aos pobres”. Se elegeu mas não aguentou o marasmo da política. Voltou ao jogo, às mulheres, à bebida.


Aquela noite foi inesquecível. Bucetélia adorou sentir o gostinho da alegria, do conforto proporcionado pela amizade. Dormiu numa cama macia pela primeira vez naquelas terras. Sonhou com Chapeuzinho. Na verdade, não sabia se era sonho ou se era delírio... Quem sabe até fosse uma visão do futuro.



Na caverna fria, Chapeuzinho sofria com as chicotadas que o carcereiro de Caos lhe dava. Todas as noites antes de dormir era a mesma coisa. A menina sofria com os golpes. Chorava de dor. Sangue escorria pelas suas costas, pelo seu corpo todo. Sofrimento sem fim. Mas o que mais lhe doía era estar longe de Bucetélia.



Todos acordaram no Asilo de Oz. Tomaram um café da manhã excelente. Bucetélia se despediu de todos. Abraçou um por um, assim como Filipe. Agradeceram a hospitalidade e saíram pela Estrada de Tijolos de Ouro.


O cavalo corria com velocidade espantosa. Os cabelos da nossa heroína voavam com o vento, o qual batia em seu rosto num frescor revigorante.


Mais à frente, avistaram os Três Porquinhos.


      - Olá!!!

      - Menina, você está viva! - exclamou um deles. E os outros também a observaram surpresos.

      - Sim! Esse aqui é Filipe.

      - Olá!

      - O Tex parou de perseguí-la? - perguntou outro porquinho.

      - Ele está morto. Filipe acabou com a raça dele!

      - Isso é incrível! Rapaz, você merecia uma medalha!

      - Que isso, só a protegi!

      - Aquele canalha merecia uma morte bem dolorosa.... O que fazem por essas bandas?

      - Estamos indo atrás de uma pessoa, uma amiga nossa.

      - Ela está perdida?

      - Acreditamos que sim.

      - Bucetélia. É esse seu nome não é?

      - Sim!

      - Tenho um presente pra você garota. Entre aqui na minha casa, vou lhe mostrar. É rapidinho.


Eles entraram. Bucetélia saiu com um vestido azul lindo. Bem ajustado ao corpo, perfeito.


      - Muito Obrigada!

      - Não há de quê! Você merecia muito. Uma jovem bonita como você não pode andar com trajes rasgados...

      - Obrigada mais uma vez! Nós temos que ir.

      - Ok! Vão atrás da sua amiga! Você sabe como chegar lá?

      - Mais ou menos. Aliás, eu tinha até me esquecido de uma coisa...

      - O quê? - perguntou o porquinho.

      - Filipe, eu tenho no meu bolso da jaqueta uma bússula mágica que mostra qual direção devemos tomar. É só perguntar que ela nos mostra o caminho certo.

      - Incrível!

      - Vamos ver...Olha, ela está apontando para além daquele bosque!

      - Então é para lá que vamos! - disse Filipe.

      - Até mais amigos!

      - Tchau! Apareçam! - disseram os porquinhos.


Filipe e Bucetélia rumaram para a direção na qual a bússula apontava.


Perto de uma, no meio do bosque, Bucetélia percebeu que havia uma pessoa encostada na árvore. No entanto, estava longe demais para saber quem era.


    • Será Rapunzel? - pensou. - Mas ela morreu na minha frente...

Foram se aproximando cada vez mais, cada vez mais. Aquela pessoa foi parecendo, aos olhos da menina, cada vez mais baixa. E era um pouco nariguda. Tinha orelhas de abano.


      - Um anão?

      - Olá lindos, que tal a gente se divertir um pouco? Custa uma moeda de ouro...disse o anão travestido e maquiado.

      - Você não é...

      - Dunga! O último dos sete anões. Prazer!

      - Só me faltava essa... - pensou a menina.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

CAPÍTULO 8

A tocha tocou aqueles restos mortais. Todos sentiram o calor. As chamas ardiam e purificavam a alma sofrida. Bucetélia, sentada num tronco ao lado de João e Maria, observava o ritual na aldeia do Clã dos Caçadores. Onde estaria a amiga Chapeuzinho? A cabeça dela estava confusa; sua memória parecia apagada. Por que tudo aquilo estava acontecendo? Que mundo estranho era esse? Perguntas, perguntas e mais perguntas. Bucetélia não lembrava de seu passado. Mal sabia quem era. Só tinha uma certeza: tinha de encontrar Chapeuzinho! Além disso, precisava seguir na Estrada de Tijolos de ouro para encontrar as respostas, para recuperar a memória e entender tudo o que se passava.


- Venha dançar com a gente! - disse João, que se levantara juntamente com Maria para se juntarem aos membros do Clã, numa espécie de dança para purificação dos mortos.

- Não sei se quero.

- Vem Bubu! - gritou Maria, já longe.

A pensativa jovem apenas acenou com a cabeça, dando a entender que ficaria ali mesmo, sentada no tronco.

A aldeia era pequena. Deviam viver cerca de duzentas pessoas nela. As cabanas eram feitas de palha e argila. Todos, com exceção de crianças bem pequenas, usavam um capuz vermelho. O capuz era o símbolo cujo significado denotava aptidão à caça. Não havia diferenciação entre homens e mulheres. Todos caçavam. Todos preparavam comida. Todos cuidavam das crianças. O lema do Clã era: Igualdade a todos. Havia, é certo, uma hierarquia. Como em muitas sociedades, os mais velhos recebiam um respeito maior por parte dos mais jovens. E a família? O núcleo fechado em si não existia. Todos eram a família. Todos eram pais, mães, irmãos. As leis eram sempre executadas e estavam sob manutenção dos anciãos (ou seja, aqueles cuja idade não permitia mais o exercício da caça). Todo membro do Clã treinava os fundamentos da caça e da luta corporal desde muito cedo. Mal começavam a caminhar e já eram mobilizados para o treinamento. A disciplina era o requisito básico para todo aquele que quisesse permanecer no Clã. Aqueles que quisessem viver fora da aldeia, deviam pedir permissão para o grupo de anciãos. Esse parecia ser o caso de Chapeuzinho. Os membros não temiam a morte: ela era vista como passagem para outro plano. Aquele ritual que Bucetélia observava era uma espécie de festa que celebrava a passagem do morto para outro mundo melhor que este. Todos sorriam e dançavam com alegria.


Uma mão tocou Bucetélia, assustando a pequena jovem. Tratava-se de uma senhora muito idosa. A mulher encarou nossa amiga e perguntou:


- Tantas pessoas felizes aqui, e por que você está triste?

- Porque sinto falta de uma pessoa que não está aqui.

- Você gosta muito dela?

- Sim!

- E o que a impede de encontrá-la?

- Não sei, tudo! Tudo dá errado! Ela se perdeu por minha culpa...

- Você tem certeza que é sua culpa?

- Prefiro pensar que sim.

- Se culpar não vai trazê-la de volta.

- Mas não sei o que posso fazer.

- O que o seu coração diz?

- Hummmm...Que devo seguir o meu caminho. E que fazendo isso, vou encontrá-la!

- Então você já tem a resposta...

- Você acha mesmo que devo fazer isso?

- O mais rápido possível.

- Mas, e se eu falhar? Se não encontrá-la?

- Você não vai saber se ficar aqui parada. Na vida nós precisamos de atitude. Devemos encarar o medo e ir em frente sem pestanejar! Você não é deste Clã, mas minha idade me dá experiência suficiente para eu reconhecer uma pessoa guerreira quando a vejo.

- Obrigada! Você me ajudou a enxergar a verdade. Preciso continuar minha jornada pela Estrada de Tijolos de Ouro. Vou encontrar o mago que sabe de tudo e perguntarei a ele sobre o paradeiro de Chapeuzinho!

- Agora enxerguei um brilho nos seus olhos...Vá em frente!

- Muito obrigada!


Bucetélia se dirigiu até João e Maria e os abraçou. A velha observava os três sentada no tronco onde havia conversado com a menina há pouco.


- Fiquem aqui na Aldeia e estarão seguros! Eu preciso continuar minha jornada.

- Você vai nos deixar? - perguntou Maria com o olhos lacrimosos.

- Por pouco tempo. Volto para buscá-los em breve! Não posso arriscar suas vidas.

- Você promete? - perguntou João, deixando escorrer uma lágrima.

- Claro, meu anjo!

Nossa heroína se dirigiu até o caminho que dava para a saída da Aldeia e na direção de volta à Estrada de Tijolos de Ouro. A velha, a qual havia observado tudo com um pequeno sorriso nos lábios, de repente desapareceu, como num passe de mágica.


De volta à Estrada de Tijolos de Ouro. Bucetélia precisava continuar caminhando. A casa do mago que sabia de tudo não podia estar muito longe. Uma vez chegando lá, perguntaria para ele qual o paradeiro de Chapeuzinho.


Estava escuro. Corujas ululavam. Olhos dos animais noturnos brilhavam. Cada passo do nossa pequena era cuidadoso. As estrelas cintilavam num céu extremamente negro. As folhas das árvores em volta vibravam e seus galhos chacoalhavam com a corrente de ar. Ao longe, uns duzentos metros dali, uma grande rocha e uma porta. Bucetélia se aproximou e observou que na grande porta havia algumas inscrições: O desenho de um arco-íris e, logo abaixo dele, estavam esculpidas as sete notas musicais. Em ordem: Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá, Si. Como entrar ali? Com certeza devia ser o lar do mago que sabia de tudo.

Havia uma espécie de argola de aço cravada na porta. Tinha a função de ajudar a pessoa a bater nela. Bucetélia bateu. Várias vezes. Nada. Novamente. E novamente. Nada. Será que o mago não queria ajudá-la? Pensou.


- Que coisa! Tenha dó! - disse, irritada.


Nisso, nossa amiga observou que o símbolo correspondente a nota musical Dó ficou brilhante.


- É isso! - Gritou, animada.


Cantarolou: - Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá, Si.


Todos os símbolos correspondentes às notas musicais brilharam, bem como o desenho do arco-íris. A porta se abriu. Bucetélia entrou.


O interior do local era todo iluminado, colorido. Havia também muita música que não sabe de onde vinha. Parecia tudo feito de cristal, ou de um material que não existia no mundo real: era mágico. Em meio às cores, números surgiam no teto e nas paredes. Tudo muito onírico. Aquelas coisas brincavam com os sentidos de Bucetélia. Os cheiros mais diversos adentravam suas narinas e o ar reluzente trazia consigo sabores inimagináveis que invadiam sua boca ao respirar. E ela caminhava em direção a um altar no qual brilhava uma luz que quase a cegava. Ela se dirigiu até a luz. A observou atentamente. Parecia se movimentar. Estava tomando uma forma semi-humana. Tinha olhos, os quais passaram a encarar também nossa querida aventureira. A luz disse:


- Olá novamente.

- Olá! Por acaso nos conhecemos?

- Sim. Eu a trouxe até aqui...

- Como?

- Numa conversa que tivemos há pouco?


Bucetélia encarou a luz assustada.


- Aquela senhora era você?

- Sim!

- O que quer de mim? – perguntou, receosa.

- Pensei que você era quem queria algo de mim...

- Eu queria. Mas você me atraiu até aqui!

- Na verdade, todos nós precisamos de você.


Bucetélia não entendia.


- Por quê?

- Porque é a única capaz de salvar esse mundo.

- Como? Eu nem sei o que sou, quem sou! Perdi minha memória totalmente...E perdi uma pessoa muito importante pra mim! Achei que quando viria aqui o tal mago que sabe de tudo poderia me ajudar... - disse, em tom de lamentação.

- Tudo ficará mais claro quando você terminar sua jornada.

- E onde ela termina?

- No recomeço de tudo.

- Não entendo nada! Afinal, quem é você?

- Você pode me chamar de Harmonia.

- Harmonia? Como assim?

- Vou lhe contar uma história...


No início, nada havia. Ou melhor, o que havia era a ausência de tudo. Ninguém sabe como, de repente, do nada surgiu um elemento fundamental. Os homens, para entendê-lo hoje, o chamam de número 1. O tempo também não existia, nem o espaço. O que havia era esse elemento. Sozinho no meio do nada, de repente, também ninguém sabe como, o tal elemento resolveu se duplicar. Surgiu o segundo elemento, idêntico ao primeiro. Esses dois materiais passaram a existir no nada. No entanto, algo os unia. Esse algo era uma espécie de elo. Os homens a chamam de linha. Surgiu, então, a distância. Por mais que se afastassem ou se aproximassem, a linha os unia naquele vazio. Ninguém sabe como, nem mesmo eu, os dois elementos fizeram deles sair um terceiro elemento, o qual também era unido a eles por um elo. Os homens passaram a chamar esses elementos de 1, 2 e 3. Três dimensões surgiram nesse jogo do universo. Porém, ainda não havia matéria, mas somente esses elementos fundamentais. Não demorou muito para que uma quarta substância fundamental surgisse daqueles três anteriores. Foi o início do plano, da realidade primordial, da matéria. Esse foi o começo do nosso universo. Da multiplicação desses elementos surgiram todas as coisas...Os universos se multiplicaram. As realidades se subdividiram. Contudo, no começo o que reinava era o caos. Os elementos eram instáveis, obsoletos. Tudo surgia e se desintegrava a todo momento. Foi aí que houve a necessidade da harmonia, do equilíbrio da matéria. Foi nesse momento que eu nasci. Surgi do caos. Mas estou aqui para controlá-lo. O caos em demasia é o fim de todas as coisas. A Harmonia, ou seja, eu, estou aqui para botar ordem na desordem... Essa era a história que eu queria lhe contar.


Bucetélia tinha ouvido tudo muito atentamente. Porém, não entendia o porquê de tal história. O que ela tinha a ver com tudo aquilo?


- Se você é tão especial assim, por que precisa da minha ajuda? Qual a minha importância?

- Você é importante para esse mundo e irá salvá-lo porque você é um s...


BANG!

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

BEM VINDOS

Criei esse blog com o intuito de deixar aqui postado o meu conto "Bucetélia no País das Perseguidas". Aos que já o acompanhavam, espero que continuem. Aos novos leitores, agradeço por visitarem esse espaço e fico feliz por lerem meus escritos. Obrigado!

CAPÍTULO 7

Era uma grande caverna. Tochas iluminavam com um fogo ardente aquele local. Um grande corredor composto por rochas lisas e uniformes. Mais tochas. Umidade e meia-luz. Passos em direção a uma parte mais iluminada. Certa elevação dava destaque para uma bola de energia cuja cor era imprecisa. Azul escuro, violeta, vermelho; cores misturadas. Aquela forma arredondada assemelhava-se à comum imagem de um buraco negro, com a diferença de que não sugava nada para o seu interior e nem consistia em alguma forma de buraco.

    • Meu senhor, trouxe Tex como prometi.

A bola de energia respondeu com uma voz potente e grossa, divina.

    • Muito bem Cavaleiro Sem Nome!

    • Ele está disposto a entregar a alma em troca de poder.

    • Isso é verdade mortal? - perguntou o ser para Tex, que estava um pouco receoso.

    • Sim...- afirmou de forma um pouco hesitante.

    • Mortal, ajoelhe-se, eu ordeno!

Tex pensou, pensou.

    • Vamos, faça o que Nosso Senhor manda! - ordenou o Cavaleiro Sem Nome.

Tex se ajoelhou. A energia proveniente daquele ser atingiu o caubói. Quando aquilo cessou, a criatura determinou:

    • Levante-se! Agora está transformado.

Tex se levantou. Parecia mais forte. Agora seus olhos estavam vermelhos. Ele sorriu.

    • Bravo! Sua missão e a do Cavaleiro Sem Nome é me ajudar a instalar completamente o caos. Para isso, devemos acabar com a Harmonia. Ela está fraca já. No entanto, não podemos penetrar na sua fortaleza para acabar de vez com ela. E a oportunidade para destruí-la está cada vez mais próxima! - disse a criatura.

Tex e o Cavaleiro Sem Nome assentiram pelas suas expressões. Os olhos vermelhos ganharam mais vigor.



Estava começando um tempestade. O Filipe cortava cabeças, braços. Desviava de golpes dos machados raivosos. Decepava pernas. Bucetélia se assustou com o sussurro de Aurora. Foi até a moça e percebeu que ela estava acordando do coma. Como aquilo seria possível? Filipe dissera que a moça havia ficado dois anos naquele estado por conta de um ataque feito por aqueles que ele agora tentava destruir. Aurora parecia muito cansada e confusa. Olhos entreabertos, respiração ofegante. Bucetélia segurou sua mão e disse:

    • Calma, Filipe já está a caminho...

O semblante de Aurora expressou felicidade com aquela informação. Porém, ela nada disse. A falta de forças a impedia de se expressar em palavras.

    • Apenas descanse – solicitou nossa heroína.

    • Ei, moça, Filipe está com dificuldades! - informou João, que ainda observava a batalha junto com Maria através da janela.

A tempestade estava mais forte. Filipe tinha vários ferimentos pelo corpo. Sangrava muito e estava esgotado. Os últimos dois guerreiros do Clã dos Machados ainda o cercavam. Ele mal conseguia empunhar a espada direito. Recebeu mais alguns golpes nas costas e no peito, dessa vez mais profundos. Caiu no chão. Não se sabe de onde tirou forças para defender um golpe que seria fatal, pois fora dado à altura da cabeça. Num giro surpreendente cravou a espada no coração do guerreiro que o atacou.

O Clã dos Machados era composto por homens fortes e altos. Os olhos deles eram puxados e raivosos. Todos cultivavam cabelos compridos mal cuidados. Barbas nunca eram cortadas por eles. Guerreiros natos, nunca se preocupavam com coisas que não estivessem ligadas à luta. Queriam apenas matar, estuprar e comer, literalmente, a vítima. Se deliciavam com o cérebro e com as entranhas daqueles que morriam em conseqüência dos golpes desferidos por seus machados. Aurora havia sofrido muito nas mãos daqueles sujeitos. Fora estuprada e ferida; e só não morreu porque Filipe conseguiu impedir tal ato. Chegou a matar alguns membros do Clã naquele momento, mas não se sentiu vingado. A vingança finalmente chegara. Havia matado pelo menos 10 membros daquele grupo. Faltava apenas o último. Aquele guerreiro encarou Filipe com muita ira. O herói não deixou por menos e segurou a espada com as duas mãos, dando a entender que faria de tudo pra vencer o duelo. Raios e trovões, vento forte. A chuva varria o sangue e o misturava com a lama. Filipe defendeu vários golpes, mas o seu inimigo parecia mais forte. Recebeu alguns ataques nos ombros, nas coxas...Quase caiu! A visão estava turva. O céu cinzento e a chuva não ajudavam também. Perdera muito sangue e a tontura já não o deixava raciocinar direito. Teria forças para dar apenas mais um golpe. O inimigo estava a uns 5 metros de distância. Correria em direção dele com toda a força, com tudo o que lhe restava de energia. Seria tudo ou nada, matar ou morrer! Calculou bem como seria o golpe. Preparou-se. Foi com tudo, ao mesmo tempo que o inimigo. Chocaram-se.















Escuridão.



Filipe abriu os olhos. A lâmina de sua espada havia decepado a cabeça de seu adversário. Fim da tempestade. Cessaram-se os ventos e os raios com trovões. Um céu azul tímido havia começado a se mostrar, com o deslocamento das nuvens. Três arco-íris enfeitavam o cenário. Bucetélia, João e Maria haviam presenciado uma incrível batalha; estavam boquiabertos com o que viram. Filipe caminhou cambaleante até a porta. Encarou os novos amigos. Estava pálido. Bucetélia nada disse. De repente, a face dele se modificou ao notar que o amor de sua vida estava acordada daquele longo sono de dois anos. Lágrimas começaram a escorrer de seus olhos... Ele mal conseguia respirar e andar, mas foi na direção de sua amada. Aurora também chorava de felicidade, mas não conseguia falar. Ele deitou ao lado dela na cama e a abraçou. Ambos compartilhavam das lágrimas de felicidade. Bucetélia observava a cena ao lado de João e Maria, e era impossível segurar a emoção. Filipe segurou o rosto de Aurora e os dois lábios se encontraram. Bucetélia lembrou de Chapeuzinho e também chorou... Aquele casal lindo talvez estivesse vivendo o melhor momento de suas vidas.

    • Eu te amo – disse Aurora.

    • Eu também te amo meu amor – respondeu Filipe.

    • Não agüentarei muito tempo, tenho que me despedir de você meu cavaleiro.

    • Digo o mesmo. Fui ferido mortalmente. Em alguns minutos fecharei meus olhos para sempre.

    • Então morreremos juntos.

    • Sim.

Bucetélia sentiu que era o momento de deixá-los a sós. Pegou nas mãos de João e Maria e os conduziu até a porta. Antes, olhou mais uma vez para Filipe e Aurora. Queria deixar gravado na sua memória aquela cena. Em seguida, abandonou a cabana, deixando para trás aquela imagem do amor mais puro que poderia existir.





Voltaram para a Estrada de Tijolos de Ouro.

    • Eles morreram Bucetélia? - perguntou Maria, enquanto caminhavam.

    • Infelizmente sim – assentiu.

    • O que será que acontece quando alguém morre? - questionou João.

    • Para essa pergunta é difícil uma resposta João. - Bucetélia, em tom sereno.



    • Que bom estarmos com você. A gente nunca pôde ir muito longe, pois Dona Wonka não deixava. - disse alegremente Maria.

    • Eu também estou contente em ficar com vocês!

    • Ei, olha lá na frente, o que é aquilo? - João, apontando para frente.

    • Várias pessoas nuas sentadas no chão...Que estranho! - disse Bucetélia – Vamos nos aproximar mais e ver quem são aquelas pessoas.

Aproximaram-se do grupo. Eram todos homens magros e estavam completamente desnudos. Semblantes sérios. No entanto, formavam um círculo e cantarolavam algo uniforme em coro, enquanto batiam as mãos uns nos outros. Estavam totalmente concentrados, quase em estado de transe. Os três chegaram ainda mais perto para ouvir aqueles homens.

Escravos de Jó jogavam caxangá

Tira, bota

Deixa ficar!

Guerreiros com guerreiros fazem zigue zigue zá

Guerreiros com guerreiros fazem zigue zigue zá

Bucetélia e as crianças estavam admiradas com a afinação do grupo. Faziam aquilo com uma precisão militar.

    • Boa tarde! - Bucetélia cumprimentou sorrindo.

Pararam de cantar a música na hora e olharam todos com cara de bravos para a menina.

    • Desculpem-me, eu não queria atrapalhar! - desculpou-se.

Continuaram olhando irritados para ela.

    • Podem continuar, não atrapalho mais!

Um deles resolveu responder a garota:

    • Você não faz parte do grupo, suma daqui!

Os outros repetiram em coro:

    • Você não faz parte do grupo, suma daqui!

    • Perdoem-me, eu não queria interromper vocês, não sabia que era tão importante assim!

    • É, desculpem a gente! - solicitou Maria, em solidariedade a Bucetélia.

    • Não tem desculpas! Pessoas que não são do grupo não são bem vindas!

    • Não tem desculpas! Pessoas que não são do grupo não são bem vindas! - repetiram todos os outros.

    • qual o nome desse grupo? - perguntou Bucetélia.

    • Escravos de Jó! - Disseram todos em coro.

    • Como se faz pra entrar no grupo? - questionou João, curioso.

    • Ninguém entra e ninguém sai do grupo! - mais um vez todos em alta voz.

Os três estavam realmente tomados pela curiosidade.

    • Eu queria saber como esse grupo começou, e o porquê de vocês cantarem essa música...

Os homens olharam todos seriamente para Bucetélia; um deles respondeu:

    • O grupo sempre existiu! Cantamos porque é nosso destino!

    • O grupo sempre existiu! Cantamos porque é nosso destino!

Bucetélia não aceitou aquela resposta.

    • Alguém deve ter começado o grupo, não é possível! - duvidou a garota.

    • Não falamos com quem não é membro! - disseram. - Pois somente membros do grupo são dignos, são pessoas boas, perfeitas; os de fora não são nada, são lixo!

    • Então tá, vamos embora, já que é assim – lamentou a menina.

Bucetélia pegou nas mãos de João e Maria e deixou os Escravos de Jó para trás. Eles continuaram cantando.

Escravos de Jó jogavam caxangá

Tira, bota

Deixa ficar!

Guerreiros com guerreiros fazem zigue zigue zá

Guerreiros com guerreiros fazem zigue zigue zá





O fim da tarde chegara. Os três já estavam um pouco cansados de caminhar. Do lado direito da estrada uma plantação gigantesca de feijão; lá no alto um casarão. Pensaram em pedir ao dono para passarem a noite ali. Chegaram até a porteira do lugar e foram barrados por um segurança.

    • Vocês não podem passar! - disse o homem forte vestido com um terno preto e óculos escuros. Tinha uma careca brilhante e bochechas de bulldog.

    • Queríamos apenas passar a noite aqui, pois estamos cansados. Não tem como a gente falar com o dono? - Bucetélia pediu encarecidamente.

    • Não há essa possibilidade, infelizmente, mocinha. - respondeu o homem.

Os três se entristeceram na hora. Sonhavam naquele momento em descansar numa cama macia; e aquela fazenda imensa com certeza teria quartos bem preparados, com tudo o que há de mais fino.

    • Quem é o dono? - perguntou Bucetélia ao segurança.

    • Meu patrão é o senhor John Bean, ou João do Pé de Feijão.

    • Poxa, ele deve ser o maior plantador de feijão que existe, pois tem isso até no sobrenome...- Maria, falando baixinho pra si mesma.

    • Como ele conseguiu isso tudo, essa fazenda gigantesca? Desculpe-me a pergunta, mas estou fascinada! - disse Bucetélia.

    • É uma longa história. Vou resumi-la: a família do senhor John era muito pobre. O único bem que tinham era uma vaquinha da qual tiravam o leite todos os dias para se alimentarem. Um dia, eles receberam uma visita ilustre, um mago poderoso e muito sábio. Ele fazia uma espécie de peregrinação por essas terras. A família de John recepcionou muito bem aquele mago, dando-lhe do leite de sua vaquinha e tratando-o da melhor forma. O sábio, então, despediu-se de todos e desejou felicidade para aquelas pessoas. Dotado de toda a sua sabedoria, o sábio foi até a vaquinha e a degolou. O pai de John ficou muito triste com tal situação. Eles se alimentaram da vaca por alguns dias e depois tiveram de ir atrás de outra coisa para fazer. Foi aí que tiveram a idéia de plantar feijão. A primeira plantação foi pequena, mas rendeu lucro. Com o correr do tempo, eles foram tendo mais e mais sucesso. Cinquenta anos depois, ou seja, hoje, John, o único membro vivo daquela família pobre, é um dos homens mais ricos que existe por essas terras. Alguns dizem que ele só ficou rico porque mantém escondida uma galinha que bota ovos de ouro. Bobagem! Quem fala isso é porque desconhece a verdadeira história do senhor John! A galinha dos ovos de ouro dele é o próprio feijão! Bendito seja aquele sábio homem que degolou aquela vaquinha...

    • Poxa, que história! É uma pena que John não nos receba como a família dele fez com o sábio. - exclamou Bucetélia.

    • As pessoas mudam de acordo com o mundo – respondeu o segurança.

    • Mas tudo bem, a gente tem que continuar nossa jornada. Foi bom falar com você e escutar essa história incrível. Obrigada por dividi-la com a gente!

    • Não há de quê! Desculpas peço eu por não poder fazer nada por vocês. Espero que fiquem bem. Cuidem-se!

    • Obrigada! - disse Bucetélia, despedindo-se e pegando novamente nas mãozinhas de João e Maria.





Estava escurecendo. Nossos amigos pensavam já em parar para descansar. Bucetélia não parava de pensar em Chapeuzinho. Tinha a convicção de que a encontraria novamente.

Avistou a uns cem metros alguma coisa no chão. Seu coração começou a bater forte, pois tratava-se de um capuz. Era semelhante aquele que Chapeuzinho usava. Estava rasgado, ensangüentado. Bucetélia começou a chorar, deixando João a Maria sem entender a situação. Mais à frente, a uns 30 metros, havia outra coisa, um tipo de caixa. Um rastro de sangue ia daquele capuz que Bucetélia encontrara até a tal caixa. Nossa heroína não queria pensar o pior. Porém, não conseguia parar de chorar compulsivamente; seu coração estava quase saltando para fora da boca.

Caminhou com cautela até a caixa, chorando, soluçando. Cada passo que dava era como receber uma chicotada nas costas. Suas pernas tremiam e sua visão ficou embaçada. Bucetélia não conseguia raciocinar. Chegou até a caixa e quase desmaiou com o que viu:



    • NÃÃÃÃÃÃÃÃAÃÃÃAÃOOOOOOOOOOOOOOO! - gritou o mais forte que pôde.

Não compreendia nada. Parecia louca, se debatendo, não acreditando no que via. Chorava, gritava, batia as mãos no chão com força e repetia o “não” diversas vezes. Estava inconformada. João e Maria estáticos, olhando para a amiga.

Dentro da caixa havia um corpo esquartejado de uma menina vestida de vermelho. Cabeças, pernas, braços, entranhas e muito sangue.

Bucetélia ficou deitada no chão chorando. João e Maria se aproximaram e abraçaram a menina, consolando-a.

Estava escuro. Vultos começaram a surgir em volta de nossos amigos. Eram sombras estranhas. João percebeu o que estava acontecendo e tentou avisar Bucetélia, mas ela não conseguia pensar em mais nada; só conseguia chorar e chorar. As sombras se aproximaram mais e mais. Cercaram os três.

Estavam todos encapuzados. Um deles dirigiu a palavra a Bucetélia:



    • Levante-se menina!

Bucetélia se assustou. Porém, não se importava de ser morta. Nada mais valia a pena. Temia apenas pelas vidas de João e Maria. Olhou atentamente para aqueles que o cercavam. Aqueles trajes não lhe eram estranhos.

    • O que vocês querem? - perguntou.

    • Somos do Clã dos Caçadores. - respondeu.

Bucetélia parou o choro e prestou atenção.

    • Queremos lhe informar o seguinte: o corpo que está esquartejado e que se encontra nessa caixa não é da sua amiga Chapeuzinho.

O alivío, a esperança, a felicidade, tudo isso retornou à mente de Bucetélia naquele instante. As lágrimas de tristeza cessaram.

Mas aonde estaria então a Chapeuzinho? O Clã dos Caçadores com certeza teria a resposta para essa pergunta.

CAPÍTULO 6

    • É aquilo que estou pensando?! - perguntou Bucetélia apreensiva.

    • Sim! O Clã dos Machados!!! Eles acharam minha casa e não desistirão até me matarem! - confirmou Chapeuzinho.

    • E o que faremos?!

    • Temos de correr, correr muito! Eles atacam em grupos de seis a dez indivíduos. Enfrentá-los seria suicídio.

    • E como sairemos daqui? Oh meu deus, estão esquartejando o Zé Mascate!! - disse, enquanto olhava pela janela.

    • Há uma porta nos fundos, escondida atrás do armário. Vamos passar por ela e correr como nunca na vida. Temos que fazer isso rápido, pois eles logo invadirão essa casa!

    • Vamos então! - disse nossa heroína com os olhos arregalados.

As duas passaram pela porta rapidamente e correram, como era previsto. Era um bosque com árvores coloridas. A luz do sol só vinha a somar naquele belo cenário. Aquela terra um pouco vermelha e úmida grudava nas solas dos sapatos de nossas aventureiras. E elas corriam sem poder prestar atenção naquela beleza que as circundavam. Em volta, passarinhos, cobras, coelhinhos e toda sorte de pequenos animais considerados fofinhos. Nada disso importava naquele momento para elas, pois só pensavam em correr e salvar suas vidas. Bucetélia escorregou na lama e ralou os joelhos. Chapeuzinho ajudou a amiga a levantar e fez sinal para que continuassem correndo. E continuaram. Um declive se iniciou logo à frente, fazendo-as serem obrigadas a ir ainda mais rápido. A sensação de passar por uma mata talvez virgem era imprescindível; Bucetélia suava, assim como Chapeuzinho, e ambas estavam no ritmo que conseguiam. - Adrenalina – pensava a inocente garota, relembrando a forma como deslizou naquele buraco que a fez parar no mundo no qual agora estava. Lembrou-se dos cogumelos, da injeção estranha, dos anões, do atirador e de sangue, muito sangue. Até agora, era o que mais tinha visto depois de atravessar aquela porta cujo código era 69. E passou por momentos muito arriscados, quase sendo morta diversas vezes. Se estava viva, Chapeuzinho era responsável, sem dúvida. Olhou para a moça guerreira, com seus cabelos ruivos que voavam junto com o vento que vinha na direção contrária. Aquele corpo bem definido, olhos verdes, sardas. - Meu anjo – pensou. Chapeuzinho só conseguia pensar em proteger aquela doce menina que a acompanhava. Não sabia ao certo o porquê do magnetismo que a unia àquela jovem. Seria coisa do destino? Olhava para aquela menininha morena de cabelos ondulados e negros, com olhos castanhos claros e sentia uma paz. Lembrava do seu sorriso gracioso, de sua pele macia como o melhor pêssego do Éden. Recordou do momento posterior a Bucetélia tomar aquele gole de vinho, à noite, na Estrada de Tijolos de Ouro: Chapeuzinho teve vontade de abraçá-la ao ver que as bochechas de sua companheira haviam ficado enrubescidas. Não o fez, talvez por medo de ser repreendida. - Mas agora faria, se tivesse oportunidade! – pensou. Chapeuzinho já estava quase esquecendo do abraço que deu em Bucetélia ainda em sua casa, após acordar do desmaio causado pelo veneno do lobo. Veio na sua cabeça a imagem daquela menina com os olhos cheios de lágrima e que veio ao seu encontro, abraçando-a. Sorriu após essa lembrança. E continuaram a correr. Logo à frente avistaram um rio.

    • Você sabe nadar? - perguntou Chapeuzinho.

    • Não sou a melhor nadadora do mundo, mas não morro afogada facilmente. - disse ofegante Bucetélia.

    • Teremos de atravessar aquele rio. Se o fizermos, creio que despistaremos totalmente o Clã dos Machados!

    • Atravessaremos então!

    • Sim, vamos agor...



FUPT!

Um machado quase atingiu Chapeuzinho. O temor da morte repentina retornou mais rápido do que acreditavam.

    • O que faremos?!! - gritou Bucetélia, apavorada.

    • Terei de lutar contra eles! - respondeu, olhando para todos os lados.

    • Você mesma disse que isso seria suicídio!

    • Não temos escolha! Quero que você atravesse o rio. Encontro você na Estrada de Tijolos de ouro.

    • Não, não vou te deixar! - disse, com os olhos encharcados.

    • Por favor, vá, eu ficarei bem, prometo! - afirmou Chapeuzinho, com lágrimas nos olhos.

    • Tome cuidado! - disse, enquanto se aproximava para abraçar a companheira.

    • Tomarei, pode deixar... - sussurrou no ouvido de Bucetélia, quando as duas estavam já abraçadas e com lágrimas escorrendo. Os coraçõezinhos bateram muito forte naquele momento.

Bucetélia se atirou no rio. Era mais ou menos uns cem metros para atingir a outra margem. No meio do caminho parou e viu Chapeuzinho cercada por vários homens fortes e com machados na mão. Pensou em voltar. Se fizesse isso, quebraria a promessa. Percebeu quando a amiga começou a lutar com aqueles guerreiros. Pulava de um lado para o outro, se esquivava dos golpes. Bucetélia preferiu deixar de ver, pois não aguentava aquilo. Continuou nadando para atingir a outra margem. Ouviu um grito feminino. Chegou do outro lado do rio. Tentou avistar Chapeuzinho de lá mas a luta parecia ter acabado. Nem sinal da amiga ou do Clã dos Machados. Sentou à beira do rio e ficou ali, observando, cabisbaixa, cansada. -Será que ela está bem? - perguntou internamente. Continuou sentada ali por mais ou menos meia hora. Estava triste e inconformada.

Bucetélia resolveu continuar o caminho. Havia prometido à amiga que iria chegar novamente na Estrada de Tijolos de Ouro. - Como o farei? - perguntou para si mesma. Lembrou então de como havia encontrado a casa de Chapeuzinho com a ajuda de Zé Mascate. - A bússola! - lembrou. Ficou contente por ter guardado aquele artefato no bolso do casaco que recebera de Leão. - Ainda bem que não tirei esse casaco para atravessar o rio – pensou. Pegou a bússola. Estava molhada. Bucetélia temia que ela não mais funcionasse por esse motivo. Balançou um pouquinho o objeto para que a água que estava nele escorresse. Abriu a tampinha e fez a pergunta para a bússola: - Para onde fica a Estrada de Tijolos de Ouro? - O instrumento apontou para o norte. Bucetélia olhou para a mesma direção e percebeu que era uma região montanhosa. Teria de adentrar naquele lugar desconhecido para atingir seu objetivo. Ao contrário do bosque pelo qual havia passado correndo, ali era seco, quase desértico. Tinha muitas rochas, colinas, vegetação rasteira. Bucetélia continuou à frente. A uns 100 metros dela, no caminho pelo qual a menina teria de passar, uma multidão. Essas pessoas estavam reunidas na parte mais aberta daquele lugar. Bucetélia foi se aproximando e observou que se tratavam de mulheres. Talvez umas duzentas moças carregando cartazes e gritando alto as mesmas coisas:

  • Queremos nossos direitos!! - gritavam algumas.

  • Abaixo o trabalho semi-escravo! - diziam em coro outras.

Bucetélia ficou curiosa. Aproximou-se de uma delas e perguntou:

    • Do que se trata essa manifestação, por favor?

    • Somos empregadas domésticas! Estamos reivindicando nossos direitos trabalhistas. Não podemos mais viver desse jeito, como umas condenadas.

    • E o que vocês querem conquistar com esse protesto? - perguntou.

    • Queremos redução da jornada de trabalho. Não agüentamos mais trabalhar das seis da manhã à meia noite! E também pretendemos ter folga nos sábados. Somos jovens, pelo menos a maioria, e temos de nos divertir!

    • Que interessante. Apóio vocês! Qual o seu nome?

    • Cinderela.

    • Bonito nome! - disse sorrindo Bucetélia.

    • Obrigada! E você, o que está fazendo por essas bandas?

    • Preciso chegar à Estrada de Tijolos de Ouro.

    • É só continuar na direção norte. Fica um pouco longe daqui.

    • Pois é. Por isso preciso ir. Espero que consigam obter resultado com esse protesto.

    • Também espero. Acredito que conseguiremos, pois se continuarmos a greve nossos patrões estarão perdidos. A maioria não sabe fazer comida, nem mesmo se pentear ou amarrar os sapatos. Vão começar a viver no meio do lixo, pois nem ao menos têm a capacidade de pegar uma vassoura e varrer a sujeira.

    • Verdade! - disse Bucetélia, rindo. - Bonitos sapatos!

    • Obrigada! São de cristal. Ganhei de um príncipe.

    • Sério? E onde ele está?

    • Boa pergunta. O sacana me deu presente, disse que me amava, me deu flores...E, por último, esses sapatos de cristal. Fez tudo bem planejado, dizendo que eu iria sair dessa vida de empregada, que viraria uma princesa e futuramente rainha. Não deu outra, dei pra ele. Não que não tenha sido bom, pois ele era maravilhoso na cama, mas eu queria que as promessas dele se cumprissem.

    • Que coisa hein! - Bucetélia lamentou.

    • E agora piorou a situação, porque tenho um filho dele pra criar. Sim, eu fiquei grávida e fodida, com o perdão da expressão! E se eu trabalhar das seis até meia noite todos os dias, como vou encontrar um pai para meu menininho? Por isso estou aqui junto com minhas amigas.

    • Você está certa em protestar! Tenho certeza que vai dar tudo certo pra você!

    • Obrigada. Espero que consiga encontrar o que você quer também. E lembre-se: não acredite em tudo o que os príncipes encantados dizem para você.

    • Lembrarei disso. Agora tenho que ir.

    • Tudo bem. Cuide-se! Tchau!

    • Você também, cuide-se. Até!



Nossa amiga continuou na direção que a levaria de volta à Estrada de Tijolos de Ouro. Ficou refletindo acerca da história de Cinderela. Muito triste, realmente. Não queria que aquilo acontecesse a ela própria. Aquilo a fez lembrar de Chapeuzinho, curiosamente. Queria muito rever a amiga. Ficou um pouco triste por lembrar do modo como as duas se separaram. Porém, ela tinha de ter a esperança de reencontrá-la.

Mais à frente avistou um menino e uma menina. Deviam ter uns nove anos de idade cada um. Estavam parados em meio à estrada com cestos à mão. Bucetélia notou que eles estavam um pouco sujos, com roupas rasgadas, despenteados e com cabelos sebosos. Olhos remelados. - Coitados – pensou. Foi se aproximando deles até ser abordada.

    • Quer comprar chocolate moça? - disse o menino.

    • Não, obrigado, não tenho dinheiro. - respondeu Bucetélia.

    • Ah, só um, por favor! - disse a menina. - É baratinho, só uma lasquinha de ouro! - falou sorrindo com olhos brilhantes.

    • Eu realmente não tenho dinheiro...- Afirmou Bucetélia com pena.

    • A gente troca por qualquer coisa de valor que você tiver, não tem problema não!

    • Eu realmente queria ajudar, mas não tenho como.

    • Viu Maria, de novo! A gente tá ferrado se não vendermos nenhum chocolate hoje!

    • Sim, estamos completamente ferrados! A Dona Wonka vai nos matar!

    • Perdão, mas quem é Dona Wonka? - perguntou Bucetélia curiosa.

    • É a mulher que nos cria. Ela mora perto daqui e tem uma fábrica de chocolates. - respondeu o garoto.

    • E por que ela cria vocês? Cadê o seu pai e a sua mãe?

    • Somos órfãos. Nossos pais morreram num ataque do Clã dos Machados. A gente fugiu e se perdeu na floresta. Aí encontramos a casa da Dona Wonka. Ela aceitou cuidar da gente se a ajudássemos a vender chocolate. O problema é que somos espancados nos dias que voltamos para casa com as mãos vazias.

    • Poxa, que coisa. Se eu pudesse ajudá-los em algo.

    • E pode, basta comprar um chocolate – disse Maria.

    • Como disse, não tenho nada de valor e nem dinheiro – lamentou Bucetélia.



Nisso veio se aproximando uma velha corcunda. Ela tinha problemas para se locomover, cabelos mal cuidados e uma verruga no nariz. Os seus olhos eram malvados.

    • E aí, venderam alguma coisa? - perguntou num tom irritado.

    • Ainda não Dona Wonka! - disse João.

    • Seus desgraçados! Dou comida, cama e uma casa para morarem e o que recebo em troca? Nada! São uns inúteis! - disse gritando.

Bucetélia estava apenas parada observando a cena. Nada podia fazer. A velha aproximou-se de João e lhe desferiu um tapa forte no meio da fuça. O menino se abaixou com a mão no rosto e começou a chorar. Maria o abraçou e chorou junto com o irmão. Bucetélia disse:

    • Minha senhora, por que maltrata essas pobres crianças? - perguntou num tom sério.

    • Não é da sua conta, vai cuidar da sua vida!

    • Eles não fizeram nada, apenas não conseguiram vender os chocolates!

    • Eu já disse pra você cuidar da sua vi...

FLIP!

Um machado acertou o meio da velha que se ajoelhou cuspindo sangue até morrer. João e Maria se assustaram e olharam para Bucetélia, que pegou nas mãos dos dois os levantando:

    • Vamos, temos que fugir daqui! -

    • Para onde? - perguntou Maria.

    • Na direção norte! - disse Bucetélia querendo apurar os dois.

FUPT! FUPT! FUPT!

Um monte de machados começaram a ser arremessados na direção deles. Bucetélia disse mais uma vez:


    • Por favor, não podemos perder tempo! Agora, corram!

E os três partiram correndo na direção norte, sem olhar para trás, deixando o corpo de Dona Wonka lá caído.

Mais à frente havia uma cabana. Bucetélia pensou, pensou, e resolveu entrar nela para talvez despistar o Clã dos Machados. Dentro dela, um rapaz loiro se assustou ao ver aquelas pessoas invadirem sua casa. Ao perceber que se tratavam de uma jovem e duas crianças indefesas, perguntou:

    • Olá, em que posso ajudá-los?

Bucetélia estava ofegante. Ao olhar aquele rapaz, algo lhe deu a certeza que ele seria hospitaleiro.

    • Estamos fugindo do Clã dos Machados! - disse.

    • Aqueles desgraçados! - disse ele. - Chegou o momento da minha vingança! Fiquem aqui, irei lá fora acabar com esses filhos da mãe! - afirmou com muita ira nos olhos.

    • O que eles fizeram com você? - perguntou Bucetélia.

    • O amor da minha vida está em coma por causa deles. Foi cruelmente atacada. Por isso vou acabar com eles. Esperei dois anos por esse dia. Cuidei de Aurora esse tempo todo acreditando que iria vingá-la. E não deu outra, hoje vocês aparecem aqui dentro da minha casa dizendo que o Clã dos Machados está lá fora! Peço que cuidem da minha amada enquanto acabou com eles, por favor! - disse o jovem, enquanto ajeitava a espada à cintura.

Enquanto ele abria a porta para enfrentar aqueles guerreiros, Bucetélia observava na única cama que havia naquela cabana uma linda jovem desfalecida. Cabelos longos e finos. Pele Clara. Era uma bela garota adormecida. João e Maria observavam através da janela. João gritou para Bucetélia:

- Moça, vem cá olhar! Ele já matou dois deles!! E outros o estão cercando.

Bucetélia foi na direção da janela e viu que era verdade o que João falara. Ela estava admirada com a coragem daquele guerreiro. Observou atentamente todos os movimentos dele com a espada, e a forma como começou a acabar com aqueles ferozes homens um por um. Até que de trás uma voz bonita e cansada chegou aos ouvidos de Bucetélia:

- Filipe! Filipe! - sussurrara a recém acordada Aurora...