Acorrentada na rocha fria da caverna escura, Chapeuzinho aguarda. Não sabe ainda o porquê de ter sido mantida viva pelos guerreiros do Clã do Machado que a capturaram. Sentia falta de Bucetélia e temia por sua segurança. Porém, nada podia fazer. Mal conseguia se movimentar, pois as correntes que a envolviam a impediam. Restava esperar.
…
Harmonia utilizou seu poder para impedir que Tex, fortalecido pelo poder do Caos, a acertasse. Criou uma espécie de campo de força ao redor da garota.
- Vocês não a matarão dessa vez! - gritou Harmonia.
- Então entregue-a! Meu mestre precisa dela para acabar com o ciclo! - disse Tex.
- Ciclo?! - exclamou a jovem, sem entender nada.
- Se ele não absorvê-la agora, conseguirá na próxima vez! Entregue-a, ou a matarei!
- Não!
BANG! BANG! BANG!
Os tiros, agora mais poderosos, pois estavam envoltos pela magia do Caos, foram todos defendidos por Harmonia. No entanto, ela aparentava fraqueza.
- Continuarei a atirar infinitamente!
- E eu a defenderei até não aguentar mais!
- Se é assim!
BANG! BANG! BANG! BANG! BANG!
Harmonia estava muito debilitada. Quase não conseguia mais proteger Bucetélia.
- O Caos é muito mais forte que você! Desista! - disse Tex.
- Nunca!
- Então toma mais alguns ti.... ARGH!
Uma espada cravou em suas costas por trás. Tex caiu de joelhos e em poucos segundos virou pó, pois assim era a morte daqueles que serviam ao Caos. Filipe guardou sua espada. Reconheceu Bucetélia e para ela sorriu.
A jovem se espantou:
- Você não morreu? - perguntou.
- Estou muito vivo, como vê! - disse o cavaleiro.
- Como?!
- Não sei ao certo. Estava quase perdendo minhas forças, morrendo, quando senti que uma energia boa, positiva, me atingiu. De repente me senti revigorado. O mesmo aconteceu com Aurora.
- E aonde ela está?
- Segura, em nossa casa. Mandou lembranças a você!
Harmonia disse:
- Fui eu que lhe ajudei, nobre cavaleiro, e o guiei até aqui!
- Por isso senti como se soubesse para onde deveria ir. Meus sentidos me trouxeram até esse lugar. Não sabia que reencontraria essa minha pequena amiga!
- Agora, sua missão é proteger essa jovem até o fim de sua jornada. - exclamou Harmonia.
- E aonde acaba minha jornada ? - perguntou Bucetélia, curiosa.
- Você sabe. Eu lhe disse para seguir seu coração...
- Preciso encontrar Chapeuzinho.
- Também sabe minha opinião quanto a isso...
- Mas pra onde devo ir?
- Chapeuzinho está presa na caverna onde reina o Caos. - respondeu Harmonia.
- Em qual direção isso fica?
- Em nenhum lugar desse mundo. O Caos está no nada. Aonde não existe tempo nem espaço.
- Hã?! Como?!
- Para chegar ao Caos, vocês precisam encontrar a aldeia do Clã dos Machados. Uma vez lá, derrotem os inimigos e saberão como encontrar Chapeuzinho no lugar onde reina o Caos.
- Como vou encontrar essa aldeia?
- Ela fica próxima ao começo de sua jornada...
- Hummm...eu me lembro daquele lugar. Uma sala muito estranha.
- Exatamente.
- Uma última pergunta: Quando Tex nos atacava, você disse “vocês não a matarão novamente”. Como assim? Não morri. Sempre estive viva, pelo que me lembro.
- Essa resposta somente terá no fim de seu destino. E espero que seja logo. Agora, siga! Você precisa encontrar o seu caminho. Boa sorte!
- Muito obrigada!
- Fiz a minha obrigação...
Saíram dali Filipe e Bucetélia.
Os dois saíram no cavalo branco do guerreiro. Novamente a sensação de cavalgar dava certo prazer à garota. Estava amanhecendo. Tudo muito verde. Céu azul. Pássaros ao redor. O caminho pela Estrada de Tijolos de Ouro estava finalmente agradável, após tantos incidentes ali ocorridos.
Avistou mais uma vez o Asilo de Oz.
- Que tal pararmos aqui um pouco para descansar? Conheço pessoas nesse asilo. - afirmou Bucetélia.
- Claro!
Ela se aproximou da porta e logo foi atendida por Leão.
- Que bom você nos visitar! Entrem, sejam bem vindos! Estamos aqui fumando narguilé! Já fumou alguma vez?
- Não...err...Esse aqui é Filipe. Ele é um grande amigo!
- Prazer em conhecê-lo. Sou Leão, o responsável pelo Asilo de Oz!
- O prazer é todo meu – retrucou Filipe.
- Vamos, sentem-se aqui nesse sofá.
Vários idosos, deficientes e retardados mentais estavam em volta, sentados em cadeiras de rodas ou mesmo no chão e encaravam os visitantes com certo entusiasmo. Fumavam narguilé tranquilamente, passando uns aos outros. Dorothy mantinha seu olhar estagnado. O Espantalho mal conseguia puxar a fumaça para dentro dos pulmões. O Homem de Lata era o mais lúcido, e sorria para os convidados, embora sem conseguir falar devido à velhice. Totó, o cãozinho sem perna, roía um osso no canto da sala.
- Aceitam vodka? - perguntou Leão.
- Não sou de beber, obrigada!
- Eu aceito! - disse Filipe.
Leão trouxe um copo e a garrafa. Caprichou na dose. Era já o fim da tarde. Bucetélia contou toda sua aventura para os residentes do Asilo, os quais escutaram tudo atentamente.
- Então quer dizer que vai atrás de Chapeuzinho? - Perguntou Leão.
- Sim, nem que seja a última coisa que eu faça na vida!
TOC, TOC, TOC!
Batidas na porta. Todos ficaram apreensivos. Filipe estava meio tonto, devido à vodka. No entanto, na espreita, com as mãos na espada. Leão se aproximou cautelosamente. Abriu a porta...
- Robin Hood! Venha, entre! Tenho convidados e você vai adorar conhecê-los.
- Olá Leão! Estava de passagem e resolvi fazer uma visita!
- Fez bem! Olha, essa menina linda aqui é a Bucetélia. O rapaz fortão aí é o Filipe. Eles estão procurando uma moça desaparecida.
- Olá, tudo bem?
- Tudo – responderam.
- Vocês gostam de jogar pôquer?
- Eu nunca joguei - respondeu Bucetélia.
- Adoro! - disse Filipe, sorridente.
- Aceita vodka, Robin? - questionou Leão.
- Aceito qualquer bebida alcoólica que você me oferecer! Hehe!
Anoiteceu. Robin Hood rapelou todos os moradores do Asilo. Rapelou, inclusive, Filipe, que perdeu todas as moedinhas de ouro que trazia consigo. A fama de Robin nessas terras encantadas era de ganhar quantias enormes de dinheiro em cassinos e em rodas de pôquer. Gatuno, adorava tirar fortunas dos mais ricos. Dar aos pobres? Bem, isso foi um mito que se espalhou. Dizem que Robin Hood já tentara ser prefeito de uma das cidadezinhas do Reino Encantado do Norte – por isso o papo de “dar aos pobres”. Se elegeu mas não aguentou o marasmo da política. Voltou ao jogo, às mulheres, à bebida.
Aquela noite foi inesquecível. Bucetélia adorou sentir o gostinho da alegria, do conforto proporcionado pela amizade. Dormiu numa cama macia pela primeira vez naquelas terras. Sonhou com Chapeuzinho. Na verdade, não sabia se era sonho ou se era delírio... Quem sabe até fosse uma visão do futuro.
…
Na caverna fria, Chapeuzinho sofria com as chicotadas que o carcereiro de Caos lhe dava. Todas as noites antes de dormir era a mesma coisa. A menina sofria com os golpes. Chorava de dor. Sangue escorria pelas suas costas, pelo seu corpo todo. Sofrimento sem fim. Mas o que mais lhe doía era estar longe de Bucetélia.
…
Todos acordaram no Asilo de Oz. Tomaram um café da manhã excelente. Bucetélia se despediu de todos. Abraçou um por um, assim como Filipe. Agradeceram a hospitalidade e saíram pela Estrada de Tijolos de Ouro.
O cavalo corria com velocidade espantosa. Os cabelos da nossa heroína voavam com o vento, o qual batia em seu rosto num frescor revigorante.
Mais à frente, avistaram os Três Porquinhos.
- Olá!!!
- Menina, você está viva! - exclamou um deles. E os outros também a observaram surpresos.
- Sim! Esse aqui é Filipe.
- Olá!
- O Tex parou de perseguí-la? - perguntou outro porquinho.
- Ele está morto. Filipe acabou com a raça dele!
- Isso é incrível! Rapaz, você merecia uma medalha!
- Que isso, só a protegi!
- Aquele canalha merecia uma morte bem dolorosa.... O que fazem por essas bandas?
- Estamos indo atrás de uma pessoa, uma amiga nossa.
- Ela está perdida?
- Acreditamos que sim.
- Bucetélia. É esse seu nome não é?
- Sim!
- Tenho um presente pra você garota. Entre aqui na minha casa, vou lhe mostrar. É rapidinho.
Eles entraram. Bucetélia saiu com um vestido azul lindo. Bem ajustado ao corpo, perfeito.
- Muito Obrigada!
- Não há de quê! Você merecia muito. Uma jovem bonita como você não pode andar com trajes rasgados...
- Obrigada mais uma vez! Nós temos que ir.
- Ok! Vão atrás da sua amiga! Você sabe como chegar lá?
- Mais ou menos. Aliás, eu tinha até me esquecido de uma coisa...
- O quê? - perguntou o porquinho.
- Filipe, eu tenho no meu bolso da jaqueta uma bússula mágica que mostra qual direção devemos tomar. É só perguntar que ela nos mostra o caminho certo.
- Incrível!
- Vamos ver...Olha, ela está apontando para além daquele bosque!
- Então é para lá que vamos! - disse Filipe.
- Até mais amigos!
- Tchau! Apareçam! - disseram os porquinhos.
Filipe e Bucetélia rumaram para a direção na qual a bússula apontava.
Perto de uma, no meio do bosque, Bucetélia percebeu que havia uma pessoa encostada na árvore. No entanto, estava longe demais para saber quem era.
Será Rapunzel? - pensou. - Mas ela morreu na minha frente...
Foram se aproximando cada vez mais, cada vez mais. Aquela pessoa foi parecendo, aos olhos da menina, cada vez mais baixa. E era um pouco nariguda. Tinha orelhas de abano.
- Um anão?
- Olá lindos, que tal a gente se divertir um pouco? Custa uma moeda de ouro...disse o anão travestido e maquiado.
- Você não é...
- Dunga! O último dos sete anões. Prazer!
- Só me faltava essa... - pensou a menina.